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segunda-feira, 26 de setembro de 2016

acabou a água, secou a fonte
não tem mais jeito, vida de merda.
nem adianta fazer viagem catarsica
embrenhar no mato, solitário
não tem santo nem reza
comigo não tem meia palavra
não tem não...
miro a linha de chegada
ainda vesga, cega, lerda
sei onde é esse lugar?
dúvidas...

danço-te



danço-te com as mãos em riste
como se lhe ensinasse passos de valsa
e me lembrasse que não sei valsear
então tango, sambo, arrasto as tamancas

danço-te inteiro, íntegro
corpo, dentro, transbordando
como quem dança a última dança
movimentos passionais

danço-te apenas e simplesmente
lenta e moderadamente
lhe envolvo no meu ventre
revolvo-lhe a mente

terça-feira, 2 de agosto de 2016

terça-feira, 21 de junho de 2016

tatoo poesia


registrei na pele
um alerta:
"poesia"

para se ler sob
duras realidades

e afastar
rasas personalidades



sim, assim


eu gosto do nosso amor
eu aqui do meu jeito
você cá do seu lado
a gente mistura um bocado
ninguém mais mete a colher
e seja o que der e vier




quinta-feira, 9 de junho de 2016

ser excessivamente não é ser plenamente



o culto a si oculta um tanto de mundo
limita um bocado a vida
nem sub nem sobre humano
verdades, certezas, afirmações
absolutismo, fanatismo, discrepância
deixe de lado esse fardo
quando acabar será coberto de terra
ou virará cinzas como eu
teus bens terão outros donos
sua memória será evitada
para não causar dor


Kátia Kirino


segunda-feira, 16 de maio de 2016

férias de mim

ai, cansaço de mim
preciso de outra solidão
dessa de encontrar vazios

ando cheia de mim
preciso ser Outras
trocar as verdades de lugar

elas não ficam bem na sala de estar

Kátia Kirino

segunda-feira, 2 de maio de 2016

[movimento de adição]

escrevo com os nervos do braço rígidos de dor
escrevi tanto que ganhei uma lesão, ela dói mais no
meu cerne. somatizei, renunciei ao antidepressivo 
do exagero vem o estrago e também a perfeição

me submeti a alguns disparates
da entrega absoluta ao nada infinito
do transbordamento a falta de sentimento
do ódio a isenção do sofrimento

parei de viver o momento para sê-lo: sou
a hora do parto, a última arfada de vida
a pausa do alvoroço...
sou o tique taque do meu tempo

disposta a morrer de fome, sem lirismo que sacie
nem catarse que exorcize o patife que devora a matéria
talvez eu consiga esquecer, parar de escrever, deixar de ser
quem sabe o ócio mitigue a dor dos braços e blá blá blá

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

ELE

ele me leva e me lava em sua alma leve
ele olha além da minha forma, me olha dentro
ele sabe o que existe por trás do meu olhar
ele é o meu dilúvio, raio, trovão, meu orvalho
ele me saqueia toda e ainda quero lhe dar mais
ele tece um cândido fio de lucidez na minha loucura
ele amarra o laço que une o agora e o amanhã
ele tem nos lábios o amargo para o meu doce chocolate
ele se cala quando a palavra deixa de falar
e ali quieto, em seu mundo, seu quarto, seu corpo
ele existe em tudo, está em todos os lugares
gruda em meus seios, pisa onde pisam meus pés
habita minha memória, modela meu id
dá-me suas mãos e se deixa guiar pelas minhas
ele é lava incandescente da minha erupção
ele é despercebidamente quem me atém sempre e além

KÁTIA KIRINO


ESPECIALISTA

queria implodir
em forte estrondo
num novo mundo
cantar até secar a voz
e recitar a poesia perfeita

mas comecei a estudar na FIOCRUZ
e agora tudo que explode
é a atual crise do SUS
engulo a seco a privatização
e só falo de projeto de intervenção

KÁTIA KIRINO


terça-feira, 1 de dezembro de 2015

passeio pela desilusão

o passaporte para o paraíso
com oásis, coqueiros e céu azul
ainda existe?

ou será que estamos fadados
a fazer do inferno
a paisagem da nossa janela?

e toda guerra e toda morte
serão brindadas em taças
de sangue embriagante

e toda essa nossa viagem
desvairada, chamada vida,
vai se esvair em desamor...

DIÁRIO BORDÔ


eu venho das minhas profundezas
viajo à bordo dos meus anseios
com um destino não traçado
chego em um lugar onde o vento leva
tudo que fui sempre, para me reinventar
tingida de fim de tarde grená, quase bordô
vou-me embora e são longas as despedidas
deixo de querer ser sempre e volto para sempre ser
com saudades do que ainda vou viver


quinta-feira, 29 de outubro de 2015

amar além do amor

sonhei com tais palavras
em tom de poesia
era uma voz muito dentro
que me dizia:

o que sobra de um amor
mal comprometido
além de lágrima e dor
é sabedoria para ser
o que antes não era amor


melancolia

(tudo que senti assistindo ao filme de Lars von Trier)


tenho forte indiferença em relação a tudo
não vou perder mais nada com o fim do mundo
nem a vida, não a encontro em lugar algum
em nenhum lugar eu sobrevivo, nenhum planeta

sim, agora a catástrofe é o sentido de existir
danço com o apocalipse uma valsa triste
somos amantes em sucessivos desencontros

alguns amores só se concretizam diante da morte....

não é o fim do mundo, nem dos tempos
é apenas um aviso que diz, em grandes letras:

"precisamos todos ser exterminados"





terça-feira, 20 de outubro de 2015

o pescador

o pescador não tem medo?
apenas essa pergunta ele faria:
seria ou não sereia?

mistério submerso em cantigas

s e r e i a   o u   n ã o   s e r i a ?

domingo, 18 de outubro de 2015

VIDA COMPLETA

pensando no que fui
não sei ser como era
apesar de não ser mais
àquela.....

tudo fica gravado
no interior do interior
por mais que tenha acabado
ainda brota uma flor

brota no vazio grotão d'alma
que hoje eu sou margarida
nem crisântemos, violetas ou tulipas
deixei as gérberas para os finados

finados sentimentos que não têm fim...





quinta-feira, 1 de outubro de 2015

vibe da bile

me emocionei ao saber:
o fígado processa emoções

comi muito açúcar
e quase fiquei biruta

tomei chá demais
o fígado se sentiu incapaz

amarguei com boldo
sentimento encontrou conforto

um copo d'água e uma sensação
a melancolia logo perde a razão

estava me desanimando no fim
mas aí comi semente de girassol

e tudo ficou no maior astral!




terça-feira, 15 de setembro de 2015

MEGERA

dona das verdades
cheia de voracidades
e caras metades
é sempre injustiçada
porém a mais abençoada
e paparicada das mulheres

ai, quanta conversa para boi dormir...

por baixo dessa saia hippie
se escondem suas mentiras
sua incapacidade de amar
o porque de tantas inimizades....








segunda-feira, 14 de setembro de 2015

terça-feira, 30 de junho de 2015

já não entendo nada, apenas ouço o som

tenho uma emoção embotada
uma causa desbotada
uma aparência esculachada

tenho em minhas mãos um caminho...

um tanto de passos e de passados
anos que passam disfarçados
tempos e ares futuros.... furdunços
poços fundos
                 posso ir embora
      porcos sujos

tenho uma emoção abotoada
uma casa destelhada
uma aparência embriagada

tenho o livro que me diz o caminho...


 

terça-feira, 10 de março de 2015

POESIA DESEMBESTADA

que o mundo todo exploda
no meu particular  infinito
nada mais sinto além de amar

na sombra úmida da pasmaceira
reverencio apenas o meu sofá
nada me tira da apatia de ali estar

mesmo que o povo saia às ruas
mesmo que o mundo venha acabar
eu com você só quero ficar.




CALA POESIA

sim, eu sei
tanto tempo sem...
tanto tempo sei

só não sabia
que felicidade cala poesia

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

ESTIVE FORA




PORQUE CONFIAR EM ALGUÉM

primeiro em quem?
porque confiar em alguém?

Ela se deu conta, depois de vários dias diferentes da sua rotina, que tudo havia mudado. Não estava fora da sua rotina, e sim em outra rota. Tal constatação foi como abraçar o desconhecido novo sem medo de errar, confiando nas palavras daquelas pessoas que escolheu estarem ao seu lado. Tal confiança foi como uma conquista, que lhe fez sentir a liberdade, a paz espiritual e o que pode ser o amor. Ela deixou-se levar por tudo aquilo que sempre procurou e não sabia onde encontrar, mas tudo estava ali, a alguns quilômetros de suas mãos.


segunda-feira, 11 de agosto de 2014

LATÊNCIA

latente no meu corpo
um desejo autêntico
de você, apenas você

nada mais me satisfaz
além do gosto fálico
dos seus poros suados

toco no fundo da sua alma
com mãos de almofadas
buscando tocar o seu céu

querendo ser toda sua
consumir nossos corpos em brasa
até deixar de ser notada











quarta-feira, 23 de julho de 2014

NÓS NO PEITO

nada em si era mudo
tudo é mais mundo
não vejo absurdo
na intenção de viver

não tem mais muro
nem menos para nós
nós no peito
nos atam em nós

NOVOS ARES

sinto os ares da paixão
ventilando pelos poros

sua forma sobrenatural
é deslumbrante...

vento que rodopia cabeça
falta de ar, calafrios

já não penso nada além da sua pele
nada além do desejo

além do medo de te perder
sem antes ter você

são novos ares e vales
horizontes de mares e amores

me deixei exatamente aqui
perdida de tanto me apaixonar







SOMENTE VOCÊ

de repente sentir
saber e perceber

que somente você

poderia me fazer
sentir, perceber
e saber

que é só você

DE MÃOS DADAS PELA ESCURIDÃO

da areia que arranha os olhos
e lhe retém a visão
brotam cristais de puro brilho

uma luz que cega os olhos
mas ultrapassa a escuridão
e encontra suas mãos dadas à minhas

Kátia Kirino


MEU MELHOR

para você

o melhor do que posso
o melhor do que tenho
o melhor do que sei
para você o melhor

o melhor que tem
em mim é seu

é você

quinta-feira, 10 de julho de 2014

HAIKKAIS

HAIKKAIS

Kátia Kirino

O ideograma KAWA - Rio , fluxo de água corrente, representa (na vertical) o esquema do haikai. 
"O sangue dos três versos escorrendo na parede da página..." Paulo Leminski 



HAIKKAI

agora a casa caiu
e o haikai passou por mim
amor à primeira rima



NÃO HESITE EM DIZER

bendita a pala
vra bem dita a palavra
ela não hesita



CERTEZA

se eu fosse talvez
eu não estaria ainda viva
no fundo do poço



TATOO

o poema na pele
arrepia os pelos do corpo
pelos versos pelados



PRINCESA LOUCA

as calcinhas perdidas
um conto de fadas fatídico
o príncipe desencantado



CANTIGAS

I
haicai balão hai
cai cai balão hai cai hai
cai na minha mão


CANTIGAS

II

não haicai não
haicai não haicai aqui na
minha mão balão


CANTIGAS

III
vou lá não vou
lá não haicai na rua do

sabão cai não




AO POETA

eu fito um poema
o poema fita comigo
ficamos juntos



JORGE SENTOU

Jorge Guerreiro
guardo o teu cavalo
a festa começou



FRIO
vento soprou frio
veste o agasalho menina
me deu calafrio


HOMEM UNIversus

era um homem
demasiado humano 
sem sapiens(cia)


PROCURA INFINITA

estou procurando
estou procurando estou
procurando estou


AUSÊNCIA

alegria difícil
dormir sem você
e acordar só eu


VASO QUEBRADO

flores no balcão
flores despetaladas
flores no chão


REFERÊNCIAS

I
para Leminski
toda poesia de Paulo
declama haicai

II
dancei para ti
um samba meio jazz
que fala de Noel


III
ARGUMENTO MIA COUTO

palavras nos fazem ser
palavras fazem-no deixar de ser
palavras para sobreviver

IV
BASHÕ

o momento interior
é a hora santa da catarse
da poesia perfeita


SOBRE O TEMPO

tempo que passa
incólume e urgente
nos deixa marcas


TEMPO O SOBRE

tempo que passa
urgente e incólume
nos leva saudade


TOCANTE

toca fundo a minha alma
mas o corpo geme e suplica
sua impressão digital


PÁRA RAIOS

não ser nunca o céu
para as suas tempestades
ser (a) sua calmaria


CAUSO

era noite de à gosto
sonhei com prima Vera
acordei com Dolores


MEIA ESTAÇÃO

em meados de maio
prenúncio do inverno
no meu coração


CAOSMOLOGIA

será possível fazer?
anular o impassível tempo
adormecer a morte?


POESIA INÚTIL DE P.L.

fazia poesia vazia
tudo vazava sem porquê
havia muito querer



LONGÍNQUA LUZ

quando morrem estrelas
nascem imagens do passado
nas janelas do sobrado



INTRANSIGENTE

não sabe o intolerante
que ele é aquilo que não tolera
e isso é intolerável



DESILUSÃO

indiferente amor
indiferente sono acordado
indiferente dor



DISTÂNCIAS

um vácuo existe
entre eu e eu contigo
um vácuo divino



PARTIDA

as únicas palavras
que ficam para todo o sempre
são as que dizem adeus














beijo




beijos
dos meus pequenos
grandes lábios

KK

quarta-feira, 28 de maio de 2014

UNS WHISKYS E OUTRAS MENTIRAS

vice versão


se alguém me falar: fique

eu direi: vamos

vai-se o verso


Kátia Kirino


_________________


quando?


o pretérito do seu presente

vai virar passado? 

Kátia Kirino


____________________________


saber aquilo? 

Hunrum! 
ou um whisky? 

Kátia Kirino


_____________________________________________


Descobri. 

você é muito barato
para o que eu posso
bancar sozinha

Kátia Kirino


___________________________________________________________________


Confesso o meu desejo de me desconectar com aqui para me conectar com o lá. (K. Kereno)

VOLTA

revira e volta
reviravolta ambulante
revira a volta

sábado, 24 de maio de 2014

É TODO SEU

eu lhe causo ciúmes
porém me esforço
músculo por músculo

para escrever meu nome
com K maiúsculo
não que o seu m 
seja Minúsculo

somos farinha do mesmo moinho
o que eu causo 
é "causo" de mineiro

caso perdido... fique

Kátia Kirino

terça-feira, 20 de maio de 2014

quinta-feira, 15 de maio de 2014

ArmaDura

não desejo vestir a roupa
de amante que você teceu
vou usar meu vestido cândido
vou cantar no meu cio oscilante
de trajes alheios tenho receio
prefiro minha roupa usada
trapos, farrapos, remendos
prefiro vestir minha armadura
de ventos....


quarta-feira, 7 de maio de 2014

CICATRIZ

meu corpo palavra
meu corpo apodrece
corpos apodrecem...
meu copo transborda
eu te reescrevo
meu corpo abandono
eu me abandonei em você
meu corpo excesso
eu fiquei vazia
Resende está vazia
meu corpo ponto final
morada da dor
quebraram minhas pernas
chutaram minha cara
mas faço valer cada cicatriz
meu corpo sobrevive
eu sobrevivo

Woods Witch - Roberto Robert

segunda-feira, 5 de maio de 2014

SEM RAZÃO DE SER

sou inadequada
com minhas botas largas
e uma sinceridade cortante

sou iluminada
com minhas próprias ideias
cadeia de velha corrente

sou amasiada
amante do amigo distante
cadela vadia errante

sou emancipada
dona do nada distante
leoa fingindo balança

nem zoológico
nem zodíaco
cada quadrado no seu arco

cada carinho um encontro
cada palavra consolo
cada prótese hipótese

sou mundana
cuja fulana falada
amaldiçoada profana

sou o que resta da festa
aquela que se diverte
até o final  da noite

sou um açoite
uma coisa qualquer
escondida na luz

vaca franga porca
peixa adicta deixa nexo
inverso da cruz, hipófise

sou o  nada
olhado do tudo
tubo sub mundo

escara

domingo, 27 de abril de 2014

MANOEL DE BARROS

http://www.elfikurten.com.br/2011/02/manoel-de-barros-natureza-e-sua-fonte.html

Este link é do Blog Tempo Cultural  Delfos e tem a maior pesquisa on line sobre o escritor que eu encontrei aqui na internet. A sua trajetória e biografia estão lá. Vou registrar aqui apenas algumas poesias simplesmente maravilhosas. Degustem.



Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não uso das palavras
Fatigadas de informar.
Dou mais respeito
Às que vivem de barriga no chão
Tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
Dou importância às coisas desimportantes
E aos seres desimportantes
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais do que as dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios
Amo os restos
Como boas moscas.
Queria que minha voz tivesse formato de canto
Porque não sou da informática
Eu sou da invencionática.
Só uso minhas palavras para compor meus silêncios.
- Manoel de Barros, do livro "Memórias inventadas – As Infâncias", São Paulo: Planeta do Brasil, 2010. p. 47.



O poeta

Vão dizer que não existo propriamente dito
Que sou um ente de sílabas.
Vão dizer que eu tenho vocação para ninguém.
Meu pai costumava me alertar:
Quem acha bonito e pode passar a vida a ouvir o som
das palavras
Ou é ninguém ou é zoró.
Eu teria treze anos.
De tarde fui olhar a Cordilheira dos Andes que
se perdia nos longes da Bolívia
E veio uma iluminura em mim.
Foi a primeira iluminura.
Daí botei meu primeiro verso:
Aquele morro bem que entorta a bunda da paisagem.
Mostrei a obra pra minha mãe.
A mãe falou:
Agora você vai ter que assumir suas irresponsabilidades.
Eu assumi: entrei no mundo das imagens.
- Manoel de Barros, em "Ensaios fotográficos", Rio de Janeiro: Record, 2000.


Tempo
"Eu não amava que botassem data na minha existência. A gente usava mais era encher o tempo. Nossa data maior era o quando. O quando mandava em nós. A gente era o que quisesse ser só usando esse advérbio. Assim, por exemplo: tem hora que eu sou quando uma árvore e podia apreciar melhor os passarinhos. Ou: tem hora que eu sou quando uma pedra. E sendo uma pedra eu posso conviver com os lagartos e os musgos. Assim: tem hora eu sou quando um rio. E as garças me beijam e me abençoam. Essa era uma teoria que a gente inventava nas tardes. Hoje eu estou quando infante. Eu resolvi voltar quando infante por um gosto de voltar. Como quem aprecia de ir às origens de uma coisa ou de um ser. Então agora eu estou quando infante. Agora nossos irmãos, nosso pai, nossa mãe e todos moramos no rancho de palha perto de uma aguada. O rancho não tinha frente nem fundo. O mato chegava perto, quase roçava nas palhas. A mãe cozinhava, lavava e costurava para nós."
 (...)
- Manoel de Barros, em "Memórias inventadas: a segunda infância".



A maior riqueza do homem
é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como sou - eu não aceito.
Não aguento ser apenas um sujeito que abre portas,
que puxa válvulas, que olha o relógio,
que compra pão às 6 horas da tarde,
que vai lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem usando borboletas.
- Manoel de Barros, em "Retrato do Artista Quando Coisa", Editora Record, 1998.


 "O Tempo só anda de ida.
A gente nasce, cresce, envelhece e morre.
Pra não morrer
É só amarrar o Tempo no Poste.
Eis a ciência da poesia:
Amarrar o Tempo no Poste!"
- Manoel de Barros, em entrevista a Bosco Martins, 2007.
 
 
 VII - No descomeço era o verbo
No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá, onde a criança diz:
eu escuto a cor dos passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não
Funciona para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um verbo, ele delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta,
que é a voz
De fazer nascimentos -
O verbo tem que pegar delírio.
- Manoel de Barros, no poema "Uma didática da invenção - 'VII'",  do "O livro das ignorãças". 2ª ed., Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,1994, p. 17.
 
 
“Para entender nós temos dois caminhos:
[o da sensibilidade que é o entendimento
do corpo;
e o da inteligência que é o entendimento
do espírito.
Eu escrevo com o corpo.
Poesia não é para compreender,
[mas para incorporar.
Entender é parede; procure ser árvore.”
- Manoel de Barros, do livro "Gramática expositiva do chão: poesia quase toda". Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1990, p. 212.
 
 
 

REPETIÇÃO DE MANOEL DE BARROS

toda vez que eu encontro uma pessoa
ela me entrega às suas lágrimas

não sei se isso é uma repetição de mim ou das lágrimas
não sei se isso é uma repetição das pessoas ou de mim

estarei incluída nas lágrimas ou nas pessoas?

toda vez que eu encontro um amor
ele me entrega às suas incertezas

não sei se isso é uma repetição de mim ou das incertezas
não sei se isso é uma repetição do amor  ou de mim

estarei incluída no amor ou nas incertezas?

toda vez que eu me encontro 
eu me entrego às minhas paixões

não sei se isso é uma repetição de mim ou das paixões
não sei se isso é uma repetição minha ou de mim

estarei incluída em mim ou nas paixões?

parece que a paixão é apenas uma extensão de mim
parece que a incerteza só é uma divulgação de mim
parece que a lágrima é minha constituição

penso que dentro da minha casca não tem pessoa nem amor
tem um silêncio extremo e visões profundas
eu gosto da doença existente nas palavras

Kátia Kirino

gata alheia

no conto de fadas da minha vida
ao invés dos sapatinhos de cristal
eu perdi as calcinhas
e até hoje só encontrei
o meu príncipe desencantado

terça-feira, 8 de abril de 2014

É SÓ PENSAR QUE VEM

misture folhas de morango com sementes de girassol
ebuli em Água Mineral Riacho com um pé de canela
deixe ao luar cheio com uma pedra de quartzo rosa
às 00 horas 00 minutos dispa-se das suas roupas
banhe-se com a água do pescoço para baixo
enquanto pronuncia o nome da pessoa amada
profetiza sua união com o mantra do coração
pede para Santo Antônio casamenteiro interceder
pendure um cupido na parede em cima da cama
tenha um momento de coragem insana
surpreenda o seu amor, cubra-o de paixão

é só pensar que vem

(Para Juliane Lopes)





domingo, 6 de abril de 2014

SOBRE SÁBADO PASSADO

meu misto quente com tomate e orégano
combina com o seu livro do Bukowski

saudade da poesia dos encontros virtuais
lá em BH ou qualquer lugar além de lá
estamos juntos, estranhos a tudo
estranhos a nós a todo mundo

eu, sofrida você, regando flores







TREINAMENTO ANTROPOFÁGICO DA ESCUTA

esse barulho é de arroz fritando
leite vazando da chaleira
pipoca estourando
boi mugindo

suspiro
dedo estalando
alguém mastigando
barulho de língua lambendo ferida

Macunaíma


MANUSEIO SEM MANUAL DE INSTRUÇÃO

ela consegue pegar o amor
tocar a sua superfície
áspera
então o ignora
ela esquece, renega
numa caixa dentro
da última gaveta do armário
tanto amor dando sopa
quem sabe ela quer colecionar?

ela consegue sentir o gosto
degusta a sua fruta
doce
então o acaricia
admira, o mesmo amor
numa caixa fora
no seu devido lugar
em cima do móvel
da sala de estar
tanto amor dando bandeira
ninguém sabe onde vai dar

Kátia Kirino
Ilustração: Federico Infante




sábado, 5 de abril de 2014

GRATIDÃO

eu agradeço
a sua falta de apreço
seu vacilo foi minha salvação
você tinha razão
acabou a diversão

eu agradeço
por me dar olhos
me dar chifres e patadas
dar asas partidas
voadora rasteira soco

eu agradeço
por me deixar sofrer
me desfazer inteira
tal nasce uma flor
e bota amor onde não há

KÁTIA KIRINO



domingo, 30 de março de 2014

VOCÊ ME FAZ SENTIR

você me faz sentir que
estou voltando a agir certo

eu nunca pensei que poderia reacontecer

mas você me faz sentir que
nosso amor pode ser possível

eu poderia apenas viver por viver

mas você me faz sentir que
tudo o que eu quero é você

agora eu sei que é amor
pois você me faz sentir
menos sozinha

COISAS BELAS E SUJAS

hoje estou romântica
pensando em alguém que vale a pena
posso dizer: me apaixonei
espero esta oportunidade sem saber
eu nunca tive alguém como você
o melhor de mim foi seu
quando me lembro do que passou
eu vejo coisas belas

hoje estou sem você
não tive como te ter
posso dizer que eu errei
somente agora eu entendo
você disse: é tarde
agora já tem outro alguém
eu pensava que era esperta
quando me lembro do que passou
eu vejo coisas sujas

sexta-feira, 28 de março de 2014

Quero falar com você

VOLTA

roda viva
rola e lá volto eu
a te encontrar

passaram dias, anos
passaram amores
e lá volta você

e agora?

meia volta ou volta inteira

MINHA CASA

minha casa
um museu de memórias falhas
um baú de recentes antiguidades

minha casa
afundada em min(as)
varanda vazia de flores

minha casa
uma estrada para meu infinito
morada da intuitiva criação

templo da imaginação
parede para pintar com cores
de palha, pedra e prata

chão de imagens
acústica de músicas
descanso e paz

DOS ESTATUTOS ANARQUISTAS DA NOITE



Dos estatutos anarquistas da noite:

(Ou como ser louco sem incomodar outro louco)

I - Todo doidão será consciente da sua própria doideira.
II - Ou a malucada racha ou cada um paga a sua cerveja.
III - Nesses momentos é melhor nenhum maluco chegar mangueando.
IV - Cada doido segura a sua própria onda.
V - Caso a onda extrapole o maluco será conduzido ao seu devido lugar. Lugar esse que pode ser em Cacha Prego.
VI - Ideias e opiniões sempre serão discutidas e curtidas em leveduras fermentadas e em ambientes esfumaçados.
VII - O louco deverá amar o outro louco acima de todas as doideiras.
VIII - Em caso de paixão avassaladora deverá o maluco se entregar.
IX - São permitidos barbas por fazer, cabelos encaracolados, roupas extravagantes, narizes de palhaço, instrumentos musicais, bicicletas desgovernadas e cadernos de poesia.

(Construção individual de observações coletivas, com Fátima Porto)

quinta-feira, 27 de março de 2014

quarta-feira, 26 de março de 2014

DIÁRIO BORDÔ

Primeira Lua de outono - 2014 / Kátia Kirino

Itamambuca / Ubatuba - SP
Kátia Kirino


o Tubarão do filme habita a memória
no momento de mergulhar longe do balneário
desta vez sem bilhetinho em garrafa
apenas a pergunta faria: seria ou não seria?
sereia submersa e suas cantigas em lua cheia
água que resplandece a noite quente
sereia ou não seria? a novidade

o Tubarão assola os pensamentos da menina
desde a tenra idade vivia embaixo da cama
nas noites em que a cama flutuava no mar
mas eram golfinhos que apareciam de dia
e o barco se movia no balanço das ondas
trilhas, visões de areia e amendoeiras
eu não temo baleias nem balanços

o pescador não tem medo?
eu vim das águas doces para desvendar segredos
o verão se vai e os ventos mudam
encontro, desencontro e estrondo surdo
fica pra trás da Serra do Mar ao norte
em despedidas e lágrimas disfarçadas
se vai ou se fica o sonho de voltar




"A estrela que estava escondida 
Sentiu-se atraída depois então
apareceu
Mas ficou tão enternecida 

Indagou a si mesma 
a estrela afinal será ela ou sou eu" 

Licença poética:
O MAR SERENOU - Candeia

Citação: A novidade - Herbert Vianna



MAR

C O M    P I T O

M A R    À    T O N A