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segunda-feira, 18 de agosto de 2014

ESTIVE FORA




PORQUE CONFIAR EM ALGUÉM

primeiro em quem?
porque confiar em alguém?

Ela se deu conta, depois de vários dias diferentes da sua rotina, que tudo havia mudado. Não estava fora da sua rotina, e sim em outra rota. Tal constatação foi como abraçar o desconhecido novo sem medo de errar, confiando nas palavras daquelas pessoas que escolheu estarem ao seu lado. Tal confiança foi como uma conquista, que lhe fez sentir a liberdade, a paz espiritual e o que pode ser o amor. Ela deixou-se levar por tudo aquilo que sempre procurou e não sabia onde encontrar, mas tudo estava ali, a alguns quilômetros de suas mãos.


segunda-feira, 11 de agosto de 2014

LATÊNCIA

latente no meu corpo
um desejo autêntico
de você, apenas você

nada mais me satisfaz
além do gosto fálico
dos seus poros suados

toco no fundo da sua alma
com mãos de almofadas
buscando tocar o seu céu

querendo ser toda sua
consumir nossos corpos em brasa
até deixar de ser notada











quarta-feira, 23 de julho de 2014

NÓS NO PEITO

nada em si era mudo
tudo é mais mundo
não vejo absurdo
na intenção de viver

não tem mais muro
nem menos para nós
nós no peito
nos atam em nós

NOVOS ARES

sinto os ares da paixão
ventilando pelos poros

sua forma sobrenatural
é deslumbrante...

vento que rodopia cabeça
falta de ar, calafrios

já não penso nada além da sua pele
nada além do desejo

além do medo de te perder
sem antes ter você

são novos ares e vales
horizontes de mares e amores

me deixei exatamente aqui
perdida de tanto me apaixonar







SOMENTE VOCÊ

de repente sentir
saber e perceber

que somente você

poderia me fazer
sentir, perceber
e saber

que é só você

DE MÃOS DADAS PELA ESCURIDÃO

da areia que arranha os olhos
e lhe retém a visão
brotam cristais de puro brilho

uma luz que cega os olhos
mas ultrapassa a escuridão
e encontra suas mãos dadas à minhas

Kátia Kirino


MEU MELHOR

para você

o melhor do que posso
o melhor do que tenho
o melhor do que sei
para você o melhor

o melhor que tem
em mim é seu

é você

quinta-feira, 10 de julho de 2014

HAIKKAIS

HAIKKAIS

Kátia Kirino

O ideograma KAWA - Rio , fluxo de água corrente, representa (na vertical) o esquema do haikai. 
"O sangue dos três versos escorrendo na parede da página..." Paulo Leminski 



HAIKKAI

agora a casa caiu
e o haikai passou por mim
amor à primeira rima



NÃO HESITE EM DIZER

bendita a pala
vra bem dita a palavra
ela não hesita



CERTEZA

se eu fosse talvez
eu não estaria ainda viva
no fundo do poço



TATOO

o poema na pele
arrepia os pelos do corpo
pelos versos pelados



PRINCESA LOUCA

as calcinhas perdidas
um conto de fadas fatídico
o príncipe desencantado



CANTIGAS

I
haicai balão hai
cai cai balão hai cai hai
cai na minha mão


CANTIGAS

II

não haicai não
haicai não haicai aqui na
minha mão balão


CANTIGAS

III
vou lá não vou
lá não haicai na rua do

sabão cai não




AO POETA

eu fito um poema
o poema fita comigo
ficamos juntos



JORGE SENTOU

Jorge Guerreiro
guardo o teu cavalo
a festa começou



FRIO
vento soprou frio
veste o agasalho menina
me deu calafrio


HOMEM UNIversus

era um homem
demasiado humano 
sem sapiens(cia)


PROCURA INFINITA

estou procurando
estou procurando estou
procurando estou


AUSÊNCIA

alegria difícil
dormir sem você
e acordar só eu


VASO QUEBRADO

flores no balcão
flores despetaladas
flores no chão


REFERÊNCIAS

I
para Leminski
toda poesia de Paulo
declama haicai

II
dancei para ti
um samba meio jazz
que fala de Noel


III
ARGUMENTO MIA COUTO

palavras nos fazem ser
palavras fazem-no deixar de ser
palavras para sobreviver

IV
BASHÕ

o momento interior
é a hora santa da catarse
da poesia perfeita


SOBRE O TEMPO

tempo que passa
incólume e urgente
nos deixa marcas


TEMPO O SOBRE

tempo que passa
urgente e incólume
nos leva saudade


TOCANTE

toca fundo a minha alma
mas o corpo geme e suplica
sua impressão digital


PÁRA RAIOS

não ser nunca o céu
para as suas tempestades
ser (a) sua calmaria


CAUSO

era noite de à gosto
sonhei com prima Vera
acordei com Dolores


MEIA ESTAÇÃO

em meados de maio
prenúncio do inverno
no meu coração


CAOSMOLOGIA

será possível fazer?
anular o impassível tempo
adormecer a morte?


POESIA INÚTIL DE P.L.

fazia poesia vazia
tudo vazava sem porquê
havia muito querer



LONGÍNQUA LUZ

quando morrem estrelas
nascem imagens do passado
nas janelas do sobrado



INTRANSIGENTE

não sabe o intolerante
que ele é aquilo que não tolera
e isso é intolerável



DESILUSÃO

indiferente amor
indiferente sono acordado
indiferente dor



DISTÂNCIAS

um vácuo existe
entre eu e eu contigo
um vácuo divino



PARTIDA

as únicas palavras
que ficam para todo o sempre
são as que dizem adeus














beijo




beijos
dos meus pequenos
grandes lábios

KK

quarta-feira, 28 de maio de 2014

UNS WHISKYS E OUTRAS MENTIRAS

vice versão


se alguém me falar: fique

eu direi: vamos

vai-se o verso


Kátia Kirino


_________________


quando?


o pretérito do seu presente

vai virar passado? 

Kátia Kirino


____________________________


saber aquilo? 

Hunrum! 
ou um whisky? 

Kátia Kirino


_____________________________________________


Descobri. 

você é muito barato
para o que eu posso
bancar sozinha

Kátia Kirino


___________________________________________________________________


Confesso o meu desejo de me desconectar com aqui para me conectar com o lá. (K. Kereno)

VOLTA

revira e volta
reviravolta ambulante
revira a volta

sábado, 24 de maio de 2014

É TODO SEU

eu lhe causo ciúmes
porém me esforço
músculo por músculo

para escrever meu nome
com K maiúsculo
não que o seu m 
seja Minúsculo

somos farinha do mesmo moinho
o que eu causo 
é "causo" de mineiro

caso perdido... fique

Kátia Kirino

terça-feira, 20 de maio de 2014

quinta-feira, 15 de maio de 2014

ArmaDura

não desejo vestir a roupa
de amante que você teceu
vou usar meu vestido cândido
vou cantar no meu cio oscilante
de trajes alheios tenho receio
prefiro minha roupa usada
trapos, farrapos, remendos
prefiro vestir minha armadura
de ventos....


quarta-feira, 7 de maio de 2014

CICATRIZ

meu corpo palavra
meu corpo apodrece
corpos apodrecem...
meu copo transborda
eu te reescrevo
meu corpo abandono
eu me abandonei em você
meu corpo excesso
eu fiquei vazia
Resende está vazia
meu corpo ponto final
morada da dor
quebraram minhas pernas
chutaram minha cara
mas faço valer cada cicatriz
meu corpo sobrevive
eu sobrevivo

Woods Witch - Roberto Robert

segunda-feira, 5 de maio de 2014

SEM RAZÃO DE SER

sou inadequada
com minhas botas largas
e uma sinceridade cortante

sou iluminada
com minhas próprias ideias
cadeia de velha corrente

sou amasiada
amante do amigo distante
cadela vadia errante

sou emancipada
dona do nada distante
leoa fingindo balança

nem zoológico
nem zodíaco
cada quadrado no seu arco

cada carinho um encontro
cada palavra consolo
cada prótese hipótese

sou mundana
cuja fulana falada
amaldiçoada profana

sou o que resta da festa
aquela que se diverte
até o final  da noite

sou um açoite
uma coisa qualquer
escondida na luz

vaca franga porca
peixa adicta deixa nexo
inverso da cruz, hipófise

sou o  nada
olhado do tudo
tubo sub mundo

escara

domingo, 27 de abril de 2014

MANOEL DE BARROS

http://www.elfikurten.com.br/2011/02/manoel-de-barros-natureza-e-sua-fonte.html

Este link é do Blog Tempo Cultural  Delfos e tem a maior pesquisa on line sobre o escritor que eu encontrei aqui na internet. A sua trajetória e biografia estão lá. Vou registrar aqui apenas algumas poesias simplesmente maravilhosas. Degustem.



Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não uso das palavras
Fatigadas de informar.
Dou mais respeito
Às que vivem de barriga no chão
Tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
Dou importância às coisas desimportantes
E aos seres desimportantes
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais do que as dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios
Amo os restos
Como boas moscas.
Queria que minha voz tivesse formato de canto
Porque não sou da informática
Eu sou da invencionática.
Só uso minhas palavras para compor meus silêncios.
- Manoel de Barros, do livro "Memórias inventadas – As Infâncias", São Paulo: Planeta do Brasil, 2010. p. 47.



O poeta

Vão dizer que não existo propriamente dito
Que sou um ente de sílabas.
Vão dizer que eu tenho vocação para ninguém.
Meu pai costumava me alertar:
Quem acha bonito e pode passar a vida a ouvir o som
das palavras
Ou é ninguém ou é zoró.
Eu teria treze anos.
De tarde fui olhar a Cordilheira dos Andes que
se perdia nos longes da Bolívia
E veio uma iluminura em mim.
Foi a primeira iluminura.
Daí botei meu primeiro verso:
Aquele morro bem que entorta a bunda da paisagem.
Mostrei a obra pra minha mãe.
A mãe falou:
Agora você vai ter que assumir suas irresponsabilidades.
Eu assumi: entrei no mundo das imagens.
- Manoel de Barros, em "Ensaios fotográficos", Rio de Janeiro: Record, 2000.


Tempo
"Eu não amava que botassem data na minha existência. A gente usava mais era encher o tempo. Nossa data maior era o quando. O quando mandava em nós. A gente era o que quisesse ser só usando esse advérbio. Assim, por exemplo: tem hora que eu sou quando uma árvore e podia apreciar melhor os passarinhos. Ou: tem hora que eu sou quando uma pedra. E sendo uma pedra eu posso conviver com os lagartos e os musgos. Assim: tem hora eu sou quando um rio. E as garças me beijam e me abençoam. Essa era uma teoria que a gente inventava nas tardes. Hoje eu estou quando infante. Eu resolvi voltar quando infante por um gosto de voltar. Como quem aprecia de ir às origens de uma coisa ou de um ser. Então agora eu estou quando infante. Agora nossos irmãos, nosso pai, nossa mãe e todos moramos no rancho de palha perto de uma aguada. O rancho não tinha frente nem fundo. O mato chegava perto, quase roçava nas palhas. A mãe cozinhava, lavava e costurava para nós."
 (...)
- Manoel de Barros, em "Memórias inventadas: a segunda infância".



A maior riqueza do homem
é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como sou - eu não aceito.
Não aguento ser apenas um sujeito que abre portas,
que puxa válvulas, que olha o relógio,
que compra pão às 6 horas da tarde,
que vai lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem usando borboletas.
- Manoel de Barros, em "Retrato do Artista Quando Coisa", Editora Record, 1998.


 "O Tempo só anda de ida.
A gente nasce, cresce, envelhece e morre.
Pra não morrer
É só amarrar o Tempo no Poste.
Eis a ciência da poesia:
Amarrar o Tempo no Poste!"
- Manoel de Barros, em entrevista a Bosco Martins, 2007.
 
 
 VII - No descomeço era o verbo
No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá, onde a criança diz:
eu escuto a cor dos passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não
Funciona para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um verbo, ele delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta,
que é a voz
De fazer nascimentos -
O verbo tem que pegar delírio.
- Manoel de Barros, no poema "Uma didática da invenção - 'VII'",  do "O livro das ignorãças". 2ª ed., Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,1994, p. 17.
 
 
“Para entender nós temos dois caminhos:
[o da sensibilidade que é o entendimento
do corpo;
e o da inteligência que é o entendimento
do espírito.
Eu escrevo com o corpo.
Poesia não é para compreender,
[mas para incorporar.
Entender é parede; procure ser árvore.”
- Manoel de Barros, do livro "Gramática expositiva do chão: poesia quase toda". Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1990, p. 212.
 
 
 

REPETIÇÃO DE MANOEL DE BARROS

toda vez que eu encontro uma pessoa
ela me entrega às suas lágrimas

não sei se isso é uma repetição de mim ou das lágrimas
não sei se isso é uma repetição das pessoas ou de mim

estarei incluída nas lágrimas ou nas pessoas?

toda vez que eu encontro um amor
ele me entrega às suas incertezas

não sei se isso é uma repetição de mim ou das incertezas
não sei se isso é uma repetição do amor  ou de mim

estarei incluída no amor ou nas incertezas?

toda vez que eu me encontro 
eu me entrego às minhas paixões

não sei se isso é uma repetição de mim ou das paixões
não sei se isso é uma repetição minha ou de mim

estarei incluída em mim ou nas paixões?

parece que a paixão é apenas uma extensão de mim
parece que a incerteza só é uma divulgação de mim
parece que a lágrima é minha constituição

penso que dentro da minha casca não tem pessoa nem amor
tem um silêncio extremo e visões profundas
eu gosto da doença existente nas palavras

Kátia Kirino

gata alheia

no conto de fadas da minha vida
ao invés dos sapatinhos de cristal
eu perdi as calcinhas
e até hoje só encontrei
o meu príncipe desencantado

terça-feira, 8 de abril de 2014

É SÓ PENSAR QUE VEM

misture folhas de morango com sementes de girassol
ebuli em Água Mineral Riacho com um pé de canela
deixe ao luar cheio com uma pedra de quartzo rosa
às 00 horas 00 minutos dispa-se das suas roupas
banhe-se com a água do pescoço para baixo
enquanto pronuncia o nome da pessoa amada
profetiza sua união com o mantra do coração
pede para Santo Antônio casamenteiro interceder
pendure um cupido na parede em cima da cama
tenha um momento de coragem insana
surpreenda o seu amor, cubra-o de paixão

é só pensar que vem

(Para Juliane Lopes)





domingo, 6 de abril de 2014

SOBRE SÁBADO PASSADO

meu misto quente com tomate e orégano
combina com o seu livro do Bukowski

saudade da poesia dos encontros virtuais
lá em BH ou qualquer lugar além de lá
estamos juntos, estranhos a tudo
estranhos a nós a todo mundo

eu, sofrida você, regando flores







TREINAMENTO ANTROPOFÁGICO DA ESCUTA

esse barulho é de arroz fritando
leite vazando da chaleira
pipoca estourando
boi mugindo

suspiro
dedo estalando
alguém mastigando
barulho de língua lambendo ferida

Macunaíma


MANUSEIO SEM MANUAL DE INSTRUÇÃO

ela consegue pegar o amor
tocar a sua superfície
áspera
então o ignora
ela esquece, renega
numa caixa dentro
da última gaveta do armário
tanto amor dando sopa
quem sabe ela quer colecionar?

ela consegue sentir o gosto
degusta a sua fruta
doce
então o acaricia
admira, o mesmo amor
numa caixa fora
no seu devido lugar
em cima do móvel
da sala de estar
tanto amor dando bandeira
ninguém sabe onde vai dar

Kátia Kirino
Ilustração: Federico Infante




sábado, 5 de abril de 2014

GRATIDÃO

eu agradeço
a sua falta de apreço
seu vacilo foi minha salvação
você tinha razão
acabou a diversão

eu agradeço
por me dar olhos
me dar chifres e patadas
dar asas partidas
voadora rasteira soco

eu agradeço
por me deixar sofrer
me desfazer inteira
tal nasce uma flor
e bota amor onde não há

KÁTIA KIRINO



domingo, 30 de março de 2014

VOCÊ ME FAZ SENTIR

você me faz sentir que
estou voltando a agir certo

eu nunca pensei que poderia reacontecer

mas você me faz sentir que
nosso amor pode ser possível

eu poderia apenas viver por viver

mas você me faz sentir que
tudo o que eu quero é você

agora eu sei que é amor
pois você me faz sentir
menos sozinha

COISAS BELAS E SUJAS

hoje estou romântica
pensando em alguém que vale a pena
posso dizer: me apaixonei
espero esta oportunidade sem saber
eu nunca tive alguém como você
o melhor de mim foi seu
quando me lembro do que passou
eu vejo coisas belas

hoje estou sem você
não tive como te ter
posso dizer que eu errei
somente agora eu entendo
você disse: é tarde
agora já tem outro alguém
eu pensava que era esperta
quando me lembro do que passou
eu vejo coisas sujas

sexta-feira, 28 de março de 2014

Quero falar com você

VOLTA

roda viva
rola e lá volto eu
a te encontrar

passaram dias, anos
passaram amores
e lá volta você

e agora?

meia volta ou volta inteira

MINHA CASA

minha casa
um museu de memórias falhas
um baú de recentes antiguidades

minha casa
afundada em min(as)
varanda vazia de flores

minha casa
uma estrada para meu infinito
morada da intuitiva criação

templo da imaginação
parede para pintar com cores
de palha, pedra e prata

chão de imagens
acústica de músicas
descanso e paz

DOS ESTATUTOS ANARQUISTAS DA NOITE



Dos estatutos anarquistas da noite:

(Ou como ser louco sem incomodar outro louco)

I - Todo doidão será consciente da sua própria doideira.
II - Ou a malucada racha ou cada um paga a sua cerveja.
III - Nesses momentos é melhor nenhum maluco chegar mangueando.
IV - Cada doido segura a sua própria onda.
V - Caso a onda extrapole o maluco será conduzido ao seu devido lugar. Lugar esse que pode ser em Cacha Prego.
VI - Ideias e opiniões sempre serão discutidas e curtidas em leveduras fermentadas e em ambientes esfumaçados.
VII - O louco deverá amar o outro louco acima de todas as doideiras.
VIII - Em caso de paixão avassaladora deverá o maluco se entregar.
IX - São permitidos barbas por fazer, cabelos encaracolados, roupas extravagantes, narizes de palhaço, instrumentos musicais, bicicletas desgovernadas e cadernos de poesia.

(Construção individual de observações coletivas, com Fátima Porto)

quinta-feira, 27 de março de 2014

quarta-feira, 26 de março de 2014

DIÁRIO BORDÔ

Primeira Lua de outono - 2014 / Kátia Kirino

Itamambuca / Ubatuba - SP
Kátia Kirino


o Tubarão do filme habita a memória
no momento de mergulhar longe do balneário
desta vez sem bilhetinho em garrafa
apenas a pergunta faria: seria ou não seria?
sereia submersa e suas cantigas em lua cheia
água que resplandece a noite quente
sereia ou não seria? a novidade

o Tubarão assola os pensamentos da menina
desde a tenra idade vivia embaixo da cama
nas noites em que a cama flutuava no mar
mas eram golfinhos que apareciam de dia
e o barco se movia no balanço das ondas
trilhas, visões de areia e amendoeiras
eu não temo baleias nem balanços

o pescador não tem medo?
eu vim das águas doces para desvendar segredos
o verão se vai e os ventos mudam
encontro, desencontro e estrondo surdo
fica pra trás da Serra do Mar ao norte
em despedidas e lágrimas disfarçadas
se vai ou se fica o sonho de voltar




"A estrela que estava escondida 
Sentiu-se atraída depois então
apareceu
Mas ficou tão enternecida 

Indagou a si mesma 
a estrela afinal será ela ou sou eu" 

Licença poética:
O MAR SERENOU - Candeia

Citação: A novidade - Herbert Vianna



MAR

C O M    P I T O

M A R    À    T O N A


sábado, 1 de março de 2014

CONSELHEIRO DOS LIMIARES

não se aprisione no belo
ande na contramão dos modelos
e vai encontrar o encanto
no dissímil feio

não tema a derrota
é o destino de quem guerreia
 e continua vivo para
pedir trégua ao inimigo

não se detenha as verdades
elas estão submersas no tempo
transpassando as farsas
de mocinho e bandido

não se deleite com versos falidos
o corsário da imaginação
já roubou-lhe a razão
atenha-se ao essencial

não se importe com o que há de vir
deixa esta porra toda explodir
o roteiro vem escrito
pela metade, improvise













NEGATIVando

minha poesia não quer querer
não quer ser bela, não quer ser certa

minha poesia não quer caber
não quer ser prosa, não quer adjetivos

minha poesia só quer ser um peixe

FARTA ARTE

bacante sem Dionísio
Mangue Beat sem Science
suingue sem contradição
meta sem fora
instalação sem Bienal
cinema sem Almodóvar
bossa sem nova
Noel sem o Rosa



AMOR ANTIGO

esse amor de gerações
vai contra o tempo
ao encontro das distâncias

esse amor nos torna opostos
e cada vez mais próximos
do fim, este limiar da vida

esse amor de anos atrás
guardado no baú de lembranças
empoeiradas e juvenis

esse amor antigo ainda me leva
a cruzar o chão da América
e reinventar a nossa união



quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

A TEMPO

já são onze horas da noite
descarto os vinte e cinco minutos
que agora são vinte e seis
(um minuto se passou)

o tempo sequer me deixa
tem sempre hora marcada
para durar o tempo que dura
(nem um minuto a mais)

então faça, seja, deseje
à tempo de ainda ser


DESEJO

o desejo que era fogo
virou carvão
cinzas de quarta-feira

gritei socorro!
apelei para o consolo

o desejo que ardia
virou o balde de água fria.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

INSPIRADOR

essa dor não me sai da cabeça
lateja,  pulsa e chacoalha

enquanto o canto fica preso na garganta
a gargalhada farfalha pelos cantos da boca
de dor e de canto eu não entendo
mas acho séria a minha risada

pode ser que um tylenol
me dê um alívio instantâneo
mas é genérico, minha senhora
não é miojo não

há mais poesia na dor
do que na risada

será que é porque ela rima com inspirador?








EU, FRIDA

A partir de hoje os textos do "Eu, Frida" serão postados no seu próprio blog, criado para esta finalidade:

http://eufrida.blogspot.com.br/

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

FRÁGIL

dois fortes abraços
um da Cris, bela
que um dia me deu o seu doce e suculento amor
outro da Cida, guerra
que sobreviveu com o filho definhando em seus braços
dois fortes abraços
na minha frágil lembrança

PÁSSARO

quero ver o que vês
voar no ar que respiras
me libertar desta atmosfera onde
não sinto os seus passos
quero o vento que lhe sopra a face
quero o beijo que nunca
foi-me dado pela distância
que hoje nos une
vou abrir minhas asas
e voar com você
Deus, seria impossível?
só mais uma chance de ser
livre, deixe-me ser celeste

voar...

(improviso sobre a canção Fly, de Jason Upton)


domingo, 23 de fevereiro de 2014

CARNAVAL

atrás do bloco dos crustáceos
eu vou bamba e com os pés no samba

não me canso nem descanso
vou seguir a banda até acabar
vestir minha fantasia de improviso
espantar a tristeza do olhar

rasgue a serpentina
tire a sua máscara
nem existe o amor

bem vindo a festa da ilusão



sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

INDO

não me calo mais
quando silencio, estou construindo o que penso
ponderando as divergências
emendando as remendas
ouvindo
ou indo

sábado, 8 de fevereiro de 2014

A MUDANÇA DE JAGGER

_ O amor não foi suficiente.

Ele me disse esta frase depois que perguntei o real motivo dele ir embora e deixar para trás todos os nossos sonhos de uma vida juntos. Ao ouvi-la, eu senti um frio dentro de mim. Não disse mais nada. Ele pegou o gato, eu dei-lhe a sacola de ração e entrei no banheiro, fiquei esperando ele ir embora. Quando ouvi o carro dar a partida eu fui fechar o portão. 


O meu vizinho, uma criança de seis anos, perguntou:


_ Kátia, onde o Jagger foi?


Jagger é o gato. Eu segurei o choro na garganta e respondi:


_ Dudu, o Jagger agora foi morar em outra casa, junto com o dono dele.


Cristina, mãe da criança, e outras vizinhas que estavam na rua naquele momento, perceberam o embaraço da situação. 


 _ Dudu, vem aqui, chamou a mãe. Acho que eu estava sorrindo para ele, então dei tchau e entrei rápido para dentro de casa. 


Ali mesmo na sala eu parei. Olhei ao redor, tudo parecia vazio. Conseguia ouvir o eco daquelas palavras no vazio da casa: o amor não foi suficiente... o amor não foi suficiente...


O ódio cresceu e veio até minha pele, que pegava fogo. Eu tive vontade de matá-lo a punhaladas. Até uma semana atrás, tudo estava bem entre nós, não tinha qualquer indício de que o amor era insuficiente ao ponto de rompermos nossa relação. Em mim o amor ainda rugia acordado e raivoso. Me senti uma completa idiota. Como eu pude me enganar tanto?


Eu não merecia aquilo. Fui uma mulher fiel, companheira e boa amante. Uma revolta me invadiu sem pedir licença, sem ao menos eu conseguir ponderar. Senti meus batimentos cardíacos acelerarem, comecei a suar frio, minha pressão caiu, parecia que eu ia desmaiar. Me sentei no chão do quintal com uma pitada de sal na boca. E agora, o que eu faço? Não sabia o que fazer, como seguir adiante, estava totalmente perdida. Pensamentos negativos invadiram minha cabeça, enquanto eu permanecia ali, ruminando e destilando meu descontentamento. 


Devido a minha coluna operada, ainda não podia fazer várias coisas. Sete meses se passaram desde a minha cirurgia e eu ainda não me sentia bem. Ainda dependia da ajuda das pessoas. Tive medo de não conseguir viver sozinha, tinha desaprendido a solidão. Ele praticamente foi morar em minha casa para cuidar de mim. Dirigia o meu carro, me levava e me buscava na fisioterapia, cuidava dos gatos, pegava tudo que era pesado e tudo que eu pedia quando eu estava de repouso, esquentava a bolsa térmica e colocava nas minhas costas, dormia ao meu lado todas as noites, quando eu mais sentia dores lombares, enfim, foi um verdadeiro amigo e companheiro. 


Perdi a vontade de comer, perdi o sono. Não aceitava a decisão dele, achava injusta. Mas deixei deste jeito. Como ficar com alguém que deixou de me amar? Como ficar suplicando seus carinhos, sua atenção? Meu orgulho não permite tal disparate. Então abri os caminhos, deixei-o livre como passarinho. Sumi da sua vida. Desconectei nossos laços totalmente. De uma hora para outra, passamos a ser estranhos. Tão estranhos que eu realmente mudei para que ele não mais me reconheça. 


Esta nova pessoa ainda ama. Mas sabe que este não é o amor de sua vida. Onde o amor não é suficiente, não há amor de verdade. Não existe amor insuficiente: ou se ama, ou não se ama. Esta nova pessoa ainda ama, mas ama mais a si do que ao outro. Esta nova pessoa descobriu que pode sim estar sozinha, mesmo com todas as limitações impostas pela vida. 


E Ganesha, a gata que ficou comigo, passou um mês sem fome e sem vontade de brincar, como eu. Mesmo sendo ameaçada constantemente por Jagger, que era o gato alfa,  ela sentiu extremamente sua falta. Mas hoje Ganesha reina absoluta em nossa casa, não precisa mais disputar o seu espaço com nenhum outro felino. Vamos muito bem, obrigada.




"Nosso amor que eu não esqueço
E que teve o seu começo
Numa festa de São João
Morre hoje sem foguete
Sem retrato e sem bilhete
Sem luar, sem violão
Perto de você me calo
Tudo penso e nada falo
Tenho medo de chorar
Nunca mais quero o seu beijo
Mas meu último desejo
Você não pode negar
Se alguma pessoa amiga
Pedir que você lhe diga
Se você me quer ou não
Diga que você me adora
Que você lamenta e chora
A nossa separação"
Às pessoas que eu detesto
Diga sempre que eu não presto
Que meu lar é o botequim
Que eu arruinei sua vida
Que eu não mereço a comida
Que você pagou pra mim"
(Último Desejo - Noel Rosa)

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

ULTRAPASSADO

como? se te abortei
lentamente por seixos
um a um
e deles eu ergui
uma parede
que não transpõe
nosso holocausto

como? se trasbordei
o limite da vida
como água corrente
descendo violentamente
e construí a ponte
que nos une e separa






POÉTICA SOLIDÃO

pra me tirar da solidão
precisa ser muito bom
precisa acabar com a dor
precisa me abrir as pétalas

para acabar com a solidão
precisa extinguir a saudade
precisa ter alguém que cole
precisa ser quem ampare

para acabar com a solidão
precisa muita solitude
precisa distância e prezo
precisa ser com paixão




LÍQUIDO QUERER

eu penso no que
sinto e o que
sinto é querer
ainda que seja
líquido
o que quero é
você

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

SORRISO

nem pictórico
nem físico
o meu sorriso

vem de dentro
de um abismo
vem da saudade
dilatada

o meu sorriso
nem aberto
nem fingido

vem tingido
de vinho tinto
de amarelo

nem sonoro
nem visível
o meu sorriso

vem do ventre
hipotético
vem do plasma
do palhaço

o meu sorriso
me sorri
seu riso

Kátia Kirino

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Pleno Caos


o corpo não cabe
a mente não acompanha
o espírito padece

não somos nada além de 
um amontoado de células
em pleno caos

vivemos na selvageria

o tempo todo pensando
instintos básicos e baixos

andamos como formigas
fodemos como vadios
comemos feito vermes

o corpo padece
a mente não cabe
o espírito não acompanha

Esta poesia é 13 de dezembro de 2011.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

TARDE PARA SER SANTO

senti a alma acariciada com a ponta dos dedos
enquanto durmo nua na cama de sonhos
mãos se esparramam em meu ventre
como ramas se espalhando nos morros

senti uma correria de vento ululando por dentro
línguas cortando a vulva molhada de desejos
o sangue treme e as pupilas se dilatam
o coração cora nas esquinas e curvas

a mente já não sabe de mais nada
fragor de vozes rasgadas
gosto forte de boca 
corpo mastigado

implora
sufoca-me
desfalece


quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

SUA VOZ

até ouvir a sua voz
breve e calma, sem nada dizer
além do que disse
eu não te imaginava humano

era apenas um espectro
um vulto de um poeta
um coração dolorido

mas então ouvi a sua voz...
e a comi com açúcar
dormi e acordei com ela
nadamos juntas na piscina
imitei a voz, fiz seu gromelô
até meu repertório ela virou

depois lhe dei silêncio
deixei ela saltar à boca
e bater no peito.

Kátia Kirino

(DES)ENCONTRO (IN)EXISTENTE

as pernas se encaixaram
quando dormimos juntos
cada um em sua cama

por horas desejei apenas suas mãos
por minutos a sua respiração
por segundos as frações do seu tempo

frigia sorrisos descarnados
forjava encontros lunares
sorvia beijos catatônicos

meu sentimento, caos de infusões
liberou o amor nunca tido
e me bastou de ilusões

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

INDEFINIDO O QUE SINTO

tentei chorar e não consigo
deixei palavras, frases e letras
para definir o que sinto
e só posso dizer:
??????????????

nada, nada tem sentido
nem o grito mudo
nem o silêncio estribilho
nada sei do que sinto
e só posso dizer:
!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!