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quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

A TEMPO

já são onze horas da noite
descarto os vinte e cinco minutos
que agora são vinte e seis
(um minuto se passou)

o tempo sequer me deixa
tem sempre hora marcada
para durar o tempo que dura
(nem um minuto a mais)

então faça, seja, deseje
à tempo de ainda ser


DESEJO

o desejo que era fogo
virou carvão
cinzas de quarta-feira

gritei socorro!
apelei para o consolo

o desejo que ardia
virou o balde de água fria.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

INSPIRADOR

essa dor não me sai da cabeça
lateja,  pulsa e chacoalha

enquanto o canto fica preso na garganta
a gargalhada farfalha pelos cantos da boca
de dor e de canto eu não entendo
mas acho séria a minha risada

pode ser que um tylenol
me dê um alívio instantâneo
mas é genérico, minha senhora
não é miojo não

há mais poesia na dor
do que na risada

será que é porque ela rima com inspirador?








EU, FRIDA

A partir de hoje os textos do "Eu, Frida" serão postados no seu próprio blog, criado para esta finalidade:

http://eufrida.blogspot.com.br/

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

FRÁGIL

dois fortes abraços
um da Cris, bela
que um dia me deu o seu doce e suculento amor
outro da Cida, guerra
que sobreviveu com o filho definhando em seus braços
dois fortes abraços
na minha frágil lembrança

PÁSSARO

quero ver o que vês
voar no ar que respiras
me libertar desta atmosfera onde
não sinto os seus passos
quero o vento que lhe sopra a face
quero o beijo que nunca
foi-me dado pela distância
que hoje nos une
vou abrir minhas asas
e voar com você
Deus, seria impossível?
só mais uma chance de ser
livre, deixe-me ser celeste

voar...

(improviso sobre a canção Fly, de Jason Upton)


domingo, 23 de fevereiro de 2014

CARNAVAL

atrás do bloco dos crustáceos
eu vou bamba e com os pés no samba

não me canso nem descanso
vou seguir a banda até acabar
vestir minha fantasia de improviso
espantar a tristeza do olhar

rasgue a serpentina
tire a sua máscara
nem existe o amor

bem vindo a festa da ilusão



sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

INDO

não me calo mais
quando silencio, estou construindo o que penso
ponderando as divergências
emendando as remendas
ouvindo
ou indo

sábado, 8 de fevereiro de 2014

A MUDANÇA DE JAGGER

_ O amor não foi suficiente.

Ele me disse esta frase depois que perguntei o real motivo dele ir embora e deixar para trás todos os nossos sonhos de uma vida juntos. Ao ouvi-la, eu senti um frio dentro de mim. Não disse mais nada. Ele pegou o gato, eu dei-lhe a sacola de ração e entrei no banheiro, fiquei esperando ele ir embora. Quando ouvi o carro dar a partida eu fui fechar o portão. 


O meu vizinho, uma criança de seis anos, perguntou:


_ Kátia, onde o Jagger foi?


Jagger é o gato. Eu segurei o choro na garganta e respondi:


_ Dudu, o Jagger agora foi morar em outra casa, junto com o dono dele.


Cristina, mãe da criança, e outras vizinhas que estavam na rua naquele momento, perceberam o embaraço da situação. 


 _ Dudu, vem aqui, chamou a mãe. Acho que eu estava sorrindo para ele, então dei tchau e entrei rápido para dentro de casa. 


Ali mesmo na sala eu parei. Olhei ao redor, tudo parecia vazio. Conseguia ouvir o eco daquelas palavras no vazio da casa: o amor não foi suficiente... o amor não foi suficiente...


O ódio cresceu e veio até minha pele, que pegava fogo. Eu tive vontade de matá-lo a punhaladas. Até uma semana atrás, tudo estava bem entre nós, não tinha qualquer indício de que o amor era insuficiente ao ponto de rompermos nossa relação. Em mim o amor ainda rugia acordado e raivoso. Me senti uma completa idiota. Como eu pude me enganar tanto?


Eu não merecia aquilo. Fui uma mulher fiel, companheira e boa amante. Uma revolta me invadiu sem pedir licença, sem ao menos eu conseguir ponderar. Senti meus batimentos cardíacos acelerarem, comecei a suar frio, minha pressão caiu, parecia que eu ia desmaiar. Me sentei no chão do quintal com uma pitada de sal na boca. E agora, o que eu faço? Não sabia o que fazer, como seguir adiante, estava totalmente perdida. Pensamentos negativos invadiram minha cabeça, enquanto eu permanecia ali, ruminando e destilando meu descontentamento. 


Devido a minha coluna operada, ainda não podia fazer várias coisas. Sete meses se passaram desde a minha cirurgia e eu ainda não me sentia bem. Ainda dependia da ajuda das pessoas. Tive medo de não conseguir viver sozinha, tinha desaprendido a solidão. Ele praticamente foi morar em minha casa para cuidar de mim. Dirigia o meu carro, me levava e me buscava na fisioterapia, cuidava dos gatos, pegava tudo que era pesado e tudo que eu pedia quando eu estava de repouso, esquentava a bolsa térmica e colocava nas minhas costas, dormia ao meu lado todas as noites, quando eu mais sentia dores lombares, enfim, foi um verdadeiro amigo e companheiro. 


Perdi a vontade de comer, perdi o sono. Não aceitava a decisão dele, achava injusta. Mas deixei deste jeito. Como ficar com alguém que deixou de me amar? Como ficar suplicando seus carinhos, sua atenção? Meu orgulho não permite tal disparate. Então abri os caminhos, deixei-o livre como passarinho. Sumi da sua vida. Desconectei nossos laços totalmente. De uma hora para outra, passamos a ser estranhos. Tão estranhos que eu realmente mudei para que ele não mais me reconheça. 


Esta nova pessoa ainda ama. Mas sabe que este não é o amor de sua vida. Onde o amor não é suficiente, não há amor de verdade. Não existe amor insuficiente: ou se ama, ou não se ama. Esta nova pessoa ainda ama, mas ama mais a si do que ao outro. Esta nova pessoa descobriu que pode sim estar sozinha, mesmo com todas as limitações impostas pela vida. 


E Ganesha, a gata que ficou comigo, passou um mês sem fome e sem vontade de brincar, como eu. Mesmo sendo ameaçada constantemente por Jagger, que era o gato alfa,  ela sentiu extremamente sua falta. Mas hoje Ganesha reina absoluta em nossa casa, não precisa mais disputar o seu espaço com nenhum outro felino. Vamos muito bem, obrigada.




"Nosso amor que eu não esqueço
E que teve o seu começo
Numa festa de São João
Morre hoje sem foguete
Sem retrato e sem bilhete
Sem luar, sem violão
Perto de você me calo
Tudo penso e nada falo
Tenho medo de chorar
Nunca mais quero o seu beijo
Mas meu último desejo
Você não pode negar
Se alguma pessoa amiga
Pedir que você lhe diga
Se você me quer ou não
Diga que você me adora
Que você lamenta e chora
A nossa separação"
Às pessoas que eu detesto
Diga sempre que eu não presto
Que meu lar é o botequim
Que eu arruinei sua vida
Que eu não mereço a comida
Que você pagou pra mim"
(Último Desejo - Noel Rosa)

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

ULTRAPASSADO

como? se te abortei
lentamente por seixos
um a um
e deles eu ergui
uma parede
que não transpõe
nosso holocausto

como? se trasbordei
o limite da vida
como água corrente
descendo violentamente
e construí a ponte
que nos une e separa






POÉTICA SOLIDÃO

pra me tirar da solidão
precisa ser muito bom
precisa acabar com a dor
precisa me abrir as pétalas

para acabar com a solidão
precisa extinguir a saudade
precisa ter alguém que cole
precisa ser quem ampare

para acabar com a solidão
precisa muita solitude
precisa distância e prezo
precisa ser com paixão




LÍQUIDO QUERER

eu penso no que
sinto e o que
sinto é querer
ainda que seja
líquido
o que quero é
você

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

SORRISO

nem pictórico
nem físico
o meu sorriso

vem de dentro
de um abismo
vem da saudade
dilatada

o meu sorriso
nem aberto
nem fingido

vem tingido
de vinho tinto
de amarelo

nem sonoro
nem visível
o meu sorriso

vem do ventre
hipotético
vem do plasma
do palhaço

o meu sorriso
me sorri
seu riso

Kátia Kirino

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Pleno Caos


o corpo não cabe
a mente não acompanha
o espírito padece

não somos nada além de 
um amontoado de células
em pleno caos

vivemos na selvageria

o tempo todo pensando
instintos básicos e baixos

andamos como formigas
fodemos como vadios
comemos feito vermes

o corpo padece
a mente não cabe
o espírito não acompanha

Esta poesia é 13 de dezembro de 2011.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

TARDE PARA SER SANTO

senti a alma acariciada com a ponta dos dedos
enquanto durmo nua na cama de sonhos
mãos se esparramam em meu ventre
como ramas se espalhando nos morros

senti uma correria de vento ululando por dentro
línguas cortando a vulva molhada de desejos
o sangue treme e as pupilas se dilatam
o coração cora nas esquinas e curvas

a mente já não sabe de mais nada
fragor de vozes rasgadas
gosto forte de boca 
corpo mastigado

implora
sufoca-me
desfalece