bom dia sol
brilho no olho do mundo
raio de vida universal
ilumine o dia de vida
de uma simples mortal
Resíduos de pensamentos, contemplações interiores e algumas histórias
toda vez que eu encontro um amigo
ele me entrega aceitação
não sei se isso é uma repetição da solidão ou da amizade
não sei se isso é uma repetição do outro ou de mim
estarei incluída na aceitação ou na solidão?
toda vez que eu encontro um amor
ele me entrega cumplicidade
não sei se isso é uma repetição da morte ou da fecundação
não sei se isso é uma repetição do amor ou de mim
estarei incluída na cumplicidade ou na morte?
toda vez que eu me reencontro
eu me entrego aos meus desejos
não sei se isso é uma repetição da apatia ou do fetiche
não sei se isso é uma repetição do avesso ou o meu fluir
estarei incluída em meu desejoso ou na apatia?
parece que o desejo é minha extensão
parece que a cumplicidade é a constituição do meu ser
parece que a aceitação é a revelação de mim
aqui tem vozes que saem das paredes
tem um silêncio extremo e visões rasas
eu gosto da mazela das não palavras
morro a cada minuto viva
os dedos frios tocam os dias
a rigidez mental
não compreende o atual
o tempo me liquefaz
não mais me petrifica
imagine algo bom
pra não pensar naquilo que te tortura
como fazer isso?
se todo dia uma fome de sofrer me devora
se a angústia são os segundos do meu tempo
e a dor não pára de doer no corpo
como deixar ir embora essa coisa ruim?
se todo dia acontece uma catástrofe
e não posso ser insensível a ela
não quero ser...
de verdade, a felicidade é uma falsa opção
rasa, insensível e egoísta de ser
fiz tantos desamigos no últimos anos
que já não sei o que é uma conexão
a miséria dos novos tempos
não é a falta de recursos
é a solidão
tenho umas ideias doidas, às vezes
coisa de criança sem filtro na língua
cheia de lembranças nebulosas
e caquinhos afiados pra juntar
perdi sonhos
no duro despertar
de fantasmas
deixaram a fantasia
e mostraram verdades
como viver de sonhos?
com tantas emoções
empossadas no barro
perdi sonhos
moldando essa argila
ergui um castelo de pesadelos
povoando a mais profunda solidão
pai, hoje faz um ano desde sua partida
ah, só eu sei de sua ausência em mim...
hoje você é a lembrança de uma vida completa
e também o carbono de um diamante inacabado
na verdade, nenhuma vida se completa
até que chegue o inevitável dia, o destino de todos nós...
deixamos para trás as roupas, as músicas, os livros
deixamos amores, dores, sonhos, projetos
deixamos tudo...tudo...tudo...
pensei em colocar suas cinzas numa ampulheta para me lembrar do tempo
há quem ache mórbid0, mas o que eu faria?
hoje eu não tenho mais casa para morar
você era a parede, o teto, o chão, as portas e janelas que me cercavam
sim pai, eu morava em você!
tento não lembrar do s0friment0 dos seus últim0s dias
aquele frio c0rtante do quarto do hospital, tudo tão branco...
prefiro você ali, alimentando os passarinhos
prefiro rir da sua risada engraçada
sentir a nossa cumplicidade, sua proteção
olhar no espelho e ver nossas semelhanças
ah pai, aquele dia você teve que ir,
não tinha como voltar, eu senti até um alívio...
fechei meus olhos, te dei a N.S. Aparecida criança
e te joguei no ar, falando baixinho pra você:
__ voa, voa pa(i)ssarinho!


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| O ideograma KAWA - Rio , fluxo de água corrente, representa (na vertical) o esquema do haikai. "O sangue dos três versos escorrendo na parede da página..." Paulo Leminski |
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| Woods Witch - Roberto Robert |
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| Ilustração: Federico Infante |