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sexta-feira, 28 de março de 2014

Quero falar com você

VOLTA

roda viva
rola e lá volto eu
a te encontrar

passaram dias, anos
passaram amores
e lá volta você

e agora?

meia volta ou volta inteira

MINHA CASA

minha casa
um museu de memórias falhas
um baú de recentes antiguidades

minha casa
afundada em min(as)
varanda vazia de flores

minha casa
uma estrada para meu infinito
morada da intuitiva criação

templo da imaginação
parede para pintar com cores
de palha, pedra e prata

chão de imagens
acústica de músicas
descanso e paz

DOS ESTATUTOS ANARQUISTAS DA NOITE



Dos estatutos anarquistas da noite:

(Ou como ser louco sem incomodar outro louco)

I - Todo doidão será consciente da sua própria doideira.
II - Ou a malucada racha ou cada um paga a sua cerveja.
III - Nesses momentos é melhor nenhum maluco chegar mangueando.
IV - Cada doido segura a sua própria onda.
V - Caso a onda extrapole o maluco será conduzido ao seu devido lugar. Lugar esse que pode ser em Cacha Prego.
VI - Ideias e opiniões sempre serão discutidas e curtidas em leveduras fermentadas e em ambientes esfumaçados.
VII - O louco deverá amar o outro louco acima de todas as doideiras.
VIII - Em caso de paixão avassaladora deverá o maluco se entregar.
IX - São permitidos barbas por fazer, cabelos encaracolados, roupas extravagantes, narizes de palhaço, instrumentos musicais, bicicletas desgovernadas e cadernos de poesia.

(Construção individual de observações coletivas, com Fátima Porto)

quinta-feira, 27 de março de 2014

SEUS OLHOS DE REPOLHO

tão longes do meu olhar
teus olhos de repolho
me vem observar

foi aquela conversa
em que eu falei sem poder te olhar
pois se visse ia lhe beijar

e seus ais finais
ficaram a me dizer
que eu quero ver você


Vídeo - A Chegada do Outono

A Chegada do Outono

quarta-feira, 26 de março de 2014

DIÁRIO BORDÔ

Primeira Lua de outono - 2014 / Kátia Kirino

Itamambuca / Ubatuba - SP
Kátia Kirino


o Tubarão do filme habita a memória
no momento de mergulhar longe do balneário
desta vez sem bilhetinho em garrafa
apenas a pergunta faria: seria ou não seria?
sereia submersa e suas cantigas em lua cheia
água que resplandece a noite quente
sereia ou não seria? a novidade

o Tubarão assola os pensamentos da menina
desde a tenra idade vivia embaixo da cama
nas noites em que a cama flutuava no mar
mas eram golfinhos que apareciam de dia
e o barco se movia no balanço das ondas
trilhas, visões de areia e amendoeiras
eu não temo baleias nem balanços

o pescador não tem medo?
eu vim das águas doces para desvendar segredos
o verão se vai e os ventos mudam
encontro, desencontro e estrondo surdo
fica pra trás da Serra do Mar ao norte
em despedidas e lágrimas disfarçadas
se vai ou se fica o sonho de voltar




"A estrela que estava escondida 
Sentiu-se atraída depois então
apareceu
Mas ficou tão enternecida 

Indagou a si mesma 
a estrela afinal será ela ou sou eu" 

Licença poética:
O MAR SERENOU - Candeia

Citação: A novidade - Herbert Vianna



MAR

C O M    P I T O

M A R    À    T O N A


sábado, 1 de março de 2014

CONSELHEIRO DOS LIMIARES

não se aprisione no belo
ande na contramão dos modelos
e vai encontrar o encanto
no dissímil feio

não tema a derrota
é o destino de quem guerreia
 e continua vivo para
pedir trégua ao inimigo

não se detenha as verdades
elas estão submersas no tempo
transpassando as farsas
de mocinho e bandido

não se deleite com versos falidos
o corsário da imaginação
já roubou-lhe a razão
atenha-se ao essencial

não se importe com o que há de vir
deixa esta porra toda explodir
o roteiro vem escrito
pela metade, improvise













NEGATIVando

minha poesia não quer querer
não quer ser bela, não quer ser certa

minha poesia não quer caber
não quer ser prosa, não quer adjetivos

minha poesia só quer ser um peixe

AMOR ANTIGO

esse amor de gerações
vai contra o tempo
ao encontro das distâncias

esse amor nos torna opostos
e cada vez mais próximos
do fim, este limiar da vida

esse amor de anos atrás
guardado no baú de lembranças
empoeiradas e juvenis

esse amor antigo ainda me leva
a cruzar o chão da América
e reinventar a nossa união



quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

A TEMPO

já são onze horas da noite
descarto os vinte e cinco minutos
que agora são vinte e seis
(um minuto se passou)

o tempo sequer me deixa
tem sempre hora marcada
para durar o tempo que dura
(nem um minuto a mais)

então faça, seja, deseje
à tempo de ainda ser


DESEJO

o desejo que era fogo
virou carvão
cinzas de quarta-feira

gritei socorro!
apelei para o consolo

o desejo que ardia
virou o balde de água fria.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

INSPIRADOR

essa dor não me sai da cabeça
lateja,  pulsa e chacoalha

enquanto o canto fica preso na garganta
a gargalhada farfalha pelos cantos da boca
de dor e de canto eu não entendo
mas acho séria a minha risada

pode ser que um tylenol
me dê um alívio instantâneo
mas é genérico, minha senhora
não é miojo não

há mais poesia na dor
do que na risada

será que é porque ela rima com inspirador?








EU, FRIDA

A partir de hoje os textos do "Eu, Frida" serão postados no seu próprio blog, criado para esta finalidade:

http://eufrida.blogspot.com.br/

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

FRÁGIL

dois fortes abraços
um da Cris, bela
que um dia me deu o seu doce e suculento amor
outro da Cida, guerra
que sobreviveu com o filho definhando em seus braços
dois fortes abraços
na minha frágil lembrança

PÁSSARO

quero ver o que vês
voar no ar que respiras
me libertar desta atmosfera onde
não sinto os seus passos
quero o vento que lhe sopra a face
quero o beijo que nunca
foi-me dado pela distância
que hoje nos une
vou abrir minhas asas
e voar com você
Deus, seria impossível?
só mais uma chance de ser
livre, deixe-me ser celeste

voar...

(improviso sobre a canção Fly, de Jason Upton)


domingo, 23 de fevereiro de 2014

CARNAVAL

atrás do bloco dos crustáceos
eu vou bamba e com os pés no samba

não me canso nem descanso
vou seguir a banda até acabar
vestir minha fantasia de improviso
espantar a tristeza do olhar

rasgue a serpentina
tire a sua máscara
nem existe o amor

bem vindo a festa da ilusão



sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

jazzigo

e quando eu morrer, virar semente da terra,
que escrevam no meu jazigo:
"aqui jazz uma flor"

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

INDO

não me calo mais
quando silencio, estou construindo o que penso
ponderando as divergências
emendando as remendas
ouvindo
ou indo

sábado, 8 de fevereiro de 2014

A MUDANÇA DE JAGGER

_ O amor não foi suficiente.

Ele me disse esta frase depois que perguntei o real motivo dele ir embora e deixar para trás todos os nossos sonhos de uma vida juntos. Ao ouvi-la, eu senti um frio dentro de mim. Não disse mais nada. Ele pegou o gato, eu dei-lhe a sacola de ração e entrei no banheiro, fiquei esperando ele ir embora. Quando ouvi o carro dar a partida eu fui fechar o portão. 


O meu vizinho, uma criança de seis anos, perguntou:


_ Kátia, onde o Jagger foi?


Jagger é o gato. Eu segurei o choro na garganta e respondi:


_ Dudu, o Jagger agora foi morar em outra casa, junto com o dono dele.


Cristina, mãe da criança, e outras vizinhas que estavam na rua naquele momento, perceberam o embaraço da situação. 


 _ Dudu, vem aqui, chamou a mãe. Acho que eu estava sorrindo para ele, então dei tchau e entrei rápido para dentro de casa. 


Ali mesmo na sala eu parei. Olhei ao redor, tudo parecia vazio. Conseguia ouvir o eco daquelas palavras no vazio da casa: o amor não foi suficiente... o amor não foi suficiente...


O ódio cresceu e veio até minha pele, que pegava fogo. Eu tive vontade de matá-lo a punhaladas. Até uma semana atrás, tudo estava bem entre nós, não tinha qualquer indício de que o amor era insuficiente ao ponto de rompermos nossa relação. Em mim o amor ainda rugia acordado e raivoso. Me senti uma completa idiota. Como eu pude me enganar tanto?


Eu não merecia aquilo. Fui uma mulher fiel, companheira e boa amante. Uma revolta me invadiu sem pedir licença, sem ao menos eu conseguir ponderar. Senti meus batimentos cardíacos acelerarem, comecei a suar frio, minha pressão caiu, parecia que eu ia desmaiar. Me sentei no chão do quintal com uma pitada de sal na boca. E agora, o que eu faço? Não sabia o que fazer, como seguir adiante, estava totalmente perdida. Pensamentos negativos invadiram minha cabeça, enquanto eu permanecia ali, ruminando e destilando meu descontentamento. 


Devido a minha coluna operada, ainda não podia fazer várias coisas. Sete meses se passaram desde a minha cirurgia e eu ainda não me sentia bem. Ainda dependia da ajuda das pessoas. Tive medo de não conseguir viver sozinha, tinha desaprendido a solidão. Ele praticamente foi morar em minha casa para cuidar de mim. Dirigia o meu carro, me levava e me buscava na fisioterapia, cuidava dos gatos, pegava tudo que era pesado e tudo que eu pedia quando eu estava de repouso, esquentava a bolsa térmica e colocava nas minhas costas, dormia ao meu lado todas as noites, quando eu mais sentia dores lombares, enfim, foi um verdadeiro amigo e companheiro. 


Perdi a vontade de comer, perdi o sono. Não aceitava a decisão dele, achava injusta. Mas deixei deste jeito. Como ficar com alguém que deixou de me amar? Como ficar suplicando seus carinhos, sua atenção? Meu orgulho não permite tal disparate. Então abri os caminhos, deixei-o livre como passarinho. Sumi da sua vida. Desconectei nossos laços totalmente. De uma hora para outra, passamos a ser estranhos. Tão estranhos que eu realmente mudei para que ele não mais me reconheça. 


Esta nova pessoa ainda ama. Mas sabe que este não é o amor de sua vida. Onde o amor não é suficiente, não há amor de verdade. Não existe amor insuficiente: ou se ama, ou não se ama. Esta nova pessoa ainda ama, mas ama mais a si do que ao outro. Esta nova pessoa descobriu que pode sim estar sozinha, mesmo com todas as limitações impostas pela vida. 


E Ganesha, a gata que ficou comigo, passou um mês sem fome e sem vontade de brincar, como eu. Mesmo sendo ameaçada constantemente por Jagger, que era o gato alfa,  ela sentiu extremamente sua falta. Mas hoje Ganesha reina absoluta em nossa casa, não precisa mais disputar o seu espaço com nenhum outro felino. Vamos muito bem, obrigada.




"Nosso amor que eu não esqueço
E que teve o seu começo
Numa festa de São João
Morre hoje sem foguete
Sem retrato e sem bilhete
Sem luar, sem violão
Perto de você me calo
Tudo penso e nada falo
Tenho medo de chorar
Nunca mais quero o seu beijo
Mas meu último desejo
Você não pode negar
Se alguma pessoa amiga
Pedir que você lhe diga
Se você me quer ou não
Diga que você me adora
Que você lamenta e chora
A nossa separação"
Às pessoas que eu detesto
Diga sempre que eu não presto
Que meu lar é o botequim
Que eu arruinei sua vida
Que eu não mereço a comida
Que você pagou pra mim"
(Último Desejo - Noel Rosa)

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

ULTRAPASSADO

como? se te abortei
lentamente por seixos
um a um
e deles eu ergui
uma parede
que não transpõe
nosso holocausto

como? se trasbordei
o limite da vida
como água corrente
descendo violentamente
e construí a ponte
que nos une e separa






POÉTICA SOLIDÃO

pra me tirar da solidão
precisa ser muito bom
precisa acabar com a dor
precisa me abrir as pétalas

para acabar com a solidão
precisa extinguir a saudade
precisa ter alguém que cole
precisa ser quem ampare

para acabar com a solidão
precisa muita solitude
precisa distância e prezo
precisa ser com paixão




LÍQUIDO QUERER

eu penso no que
sinto e o que
sinto é querer
ainda que seja
líquido
o que quero é
você

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

SORRISO

nem pictórico
nem físico
o meu sorriso

vem de dentro
de um abismo
vem da saudade
dilatada

o meu sorriso
nem aberto
nem fingido

vem tingido
de vinho tinto
de amarelo

nem sonoro
nem visível
o meu sorriso

vem do ventre
hipotético
vem do plasma
do palhaço

o meu sorriso
me sorri
seu riso

Kátia Kirino

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Pleno Caos


o corpo não cabe
a mente não acompanha
o espírito padece

não somos nada além de 
um amontoado de células
em pleno caos

vivemos na selvageria

o tempo todo pensando
instintos básicos e baixos

andamos como formigas
fodemos como vadios
comemos feito vermes

o corpo padece
a mente não cabe
o espírito não acompanha

Esta poesia é 13 de dezembro de 2011.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

TARDE PARA SER SANTO

senti a alma acariciada com a ponta dos dedos
enquanto durmo nua na cama de sonhos
mãos se esparramam em meu ventre
como ramas se espalhando nos morros

senti uma correria de vento ululando por dentro
línguas cortando a vulva molhada de desejos
o sangue treme e as pupilas se dilatam
o coração cora nas esquinas e curvas

a mente já não sabe de mais nada
fragor de vozes rasgadas
gosto forte de boca 
corpo mastigado

implora
sufoca-me
desfalece


quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

SUA VOZ

até ouvir a sua voz
breve e calma, sem nada dizer
além do que disse
eu não te imaginava humano

era apenas um espectro
um vulto de um poeta
um coração dolorido

mas então ouvi a sua voz...
e a comi com açúcar
dormi e acordei com ela
nadamos juntas na piscina
imitei a voz, fiz seu gromelô
até meu repertório ela virou

depois lhe dei silêncio
deixei ela saltar à boca
e bater no peito.

Kátia Kirino

(DES)ENCONTRO (IN)EXISTENTE

as pernas se encaixaram
quando dormimos juntos
cada um em sua cama

por horas desejei apenas suas mãos
por minutos a sua respiração
por segundos as frações do seu tempo

frigia sorrisos descarnados
forjava encontros lunares
sorvia beijos catatônicos

meu sentimento, caos de infusões
liberou o amor nunca tido
e me bastou de ilusões

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

INDEFINIDO O QUE SINTO

tentei chorar e não consigo
deixei palavras, frases e letras
para definir o que sinto
e só posso dizer:
??????????????

nada, nada tem sentido
nem o grito mudo
nem o silêncio estribilho
nada sei do que sinto
e só posso dizer:
!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!



segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

ATÉ ELA



PASSARELA


não ficar impassível
ao que passa por ela
e ao que fica do que passou
é passível que o possível
estremeça a passarela
o que finda não esvai
e o que vai volta
pela via que passa nela

HAICAI

BLOSSOM DEARIE

eu fiz dancinha
com a ponta dos meus pés
escutando jazz

------------

COLETIVO

palavra dita
não tem dono nem rumo
a-tinge todo

sábado, 25 de janeiro de 2014

ALGUÉM QUE NÃO SEI QUEM

chegou alguém
que não sei quem
me despertou
não sei o quê

tal como imã, atraiu
me derreteu à fogo
me embutiu as tripas

não sei seu rosto
nem o seu gosto

chegou trovejando poesia
transbordando afeto
disse adeus sem nem sair
e mora longe dentro de mim

anseio suas palavras
pergunto se os seus versos
são meus?

queria lhe falar frases eternas
derramar-lhe meu cio
cobrir-lhe os ombros de abraços
encher de sorriso sua melancolia



COMPLETUDE

Eu e minha solidão que eu adoro
Abalo de calma e mansidão
Silêncio que fala e diz tudo
Eu e minha solidão
Tão vasta e tão sólida
Tão casta e tão eólica
Minha solidão que eu adoro
Quero vivenciá-la  até o fim
E desbundar de sua essência
Até que reste entre eu e ela
Comunhão


quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

TROVA

tocou uma canção
dentro de mim
fez-me dançar
rodopiar
povoou meu coração
um canto branco
fez-me ouvir
gargalhadas

solitário coração
encontra outro
melodia de duas notas
e vários sons

MAKTUB

tudo que fale, verse
tudo que sinta, ferve
tudo que faça, acontece

maktub

Kátia Kirino

VENDO A BANDA PASSAR

quisera amar suas noites melódicas
seus beijos cantados
o refrão das suas carências
a voz de tenor afinada

mas minha solidão harmônica
me tirou do compasso
fui sambar em outra escola
perdi o ensaio da banda


NoctíVAGA

vaga lume
vaga vida
lume cega
fluorescente
vaga pela
noite


Nota: título de Rogério Ramos Pimentel

OLX

a vida me fez assim
um ser que não sente
uma mulher que se deita
em sua cama quente
sem deixar sementes
sem apelo ao amor
um ser que dez-a-pega

MENTIRAS DE FIM DE NOITE

quero vomitar arco íris de papel
sujar a maculada fonte da verdade
com mentiras de fim de noite

fazer brotar o monstro adormecido
essa loba louca que anda rouca
trôpega de uivos calados

quero tirar as garras para fora
afiadas, famintas e febris
qual gata no cio a passear na noite

me deleito dessa vontade até cansar
uma transa qualquer eu topo
mas amar só amo o amor


quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

AMOR CANSADO

meu amor se cansou
do amor feito

apagou suas pegadas
deixou-me livre e ilhada

vou costurar a alma
no desapreço do amor cansado

e seguir pelo efêmero eterno
desconhecido  e só caminho





CALAMIDADE

meus avessos indomados
estão em guerra

meus inteiros despedaçados
viraram cacos

o passado me deu um soco
o meu mundo ficou oco

então miro o horizonte
e percebo que minha vida
é uma calamidade em busca da poesia

Kátia Kirino

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

o belo e o sofrível

deixa eu chorar minhas tristezas
deixa eu falar meus desencantos
cansei dessa minha falsa alegria
quem não tem desentendimentos amorosos?
quem não sofre ou um dia sofreu?
entendam meu estado é de espírito
não fosse assim, tudo seria mais fácil
mas não quero simplesmente deixar doer
quem não ri de suas desgraças
amarga o gosto do desamparo

Não me importo com o que falam
nem o que pensam sobre mim
só eu sei o que sinto,
meu existir no mundo é único
por mais que os amigos sejam importantes
e o são,
mas estou plena e convicta do meu amor próprio
não me leiam tentando entender
pois nem eu sei o que está se passando agora
sei que é amplo meu pensamento
por isso deixei as portas abertas
por isso abri minhas percepções

não sinto só, me sinto comigo
estou na companhia de valiosos amigos
e muita gente querendo ver o circo pegar fogo
para essas deixo minha gentileza
se não me quer ler, me deixa
tem várias formas de dizer adeus
eu escolho a minha, cada um a sua
ninguém tem nada a ver com isso
e se tiver, me acene um tchau

a barreira entre o belo e o sofrível está nos olhos de quem lê.

domingo, 12 de janeiro de 2014

VISÃO NOTURNA

Um calor me mandou pra fora da existência de casa.
Em pleno verão adverso de sete sóis assolando a carne.
Ali, naquela noite de céu limpo e lua crescente,
a música no carro tornou ameno o caminho.
Alcancei o ponto mais alto da estrada,
as luzes embaixo das rodas me deram
estranhas sensações de penhasco.
Diminui a velocidade.
Quis a estrada toda minha,
a estrada e a música.

Cheguei. Aonde estou? São onze horas da noite.
Cheguei antes do tempo, ainda quente.
Quis tirar as roupas, mas o tempo se enclausurou
naquela estrada, tempo de contemplações.

Então surgiram livros voadores,
pousaram em minhas mãos, me fazendo lê-los.
Minha mente se expandiu no espaço
viajei castelos, igrejas barrocas, telhados,
conheci culturas, teorias e histórias.

Como vozes os pensamentos acordaram. Abri os olhos.
Já eram oito e meia da manhã.
Já era quase outra vida,
e meu delírio transpassou a noite, acordei aturdida.
Desde então comecei a enxergar no escuro
e a usar óculos de dia.

IMPRESSÕES TÁCTEIS

Acordei com seus versos nos meus lábios, 
balbuciando palavras de cores e texturas tácteis.
Acordei com seus versos na língua, 
tateando molhada as sílabas da sua arte sacanagem.



Permanecem suas impressas percepções 
no intacto gosto do papel
gosto de saliva no céu da boca
lambendo o poema parido.

a noite com sono

a noite dorme em si mesma
abraçada em sonhos de almo-fadas
no embalo de grilos falantes
na calada madrugada
dorme noite, já está tonta de sono
tropeços no escuro
rima acordada

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

FOTOFELICIDADE




ADULARESCÊNCIA

meu olhar sobre a vida está cheio de lampejos prateados
que lembram o brilho da lua
minhas retinas captam o reflexo interno do brilho da vida
provocando efeitos resplandecentes ondulantes sobre as coisas vistas
efeitos hora brancos, hora azuis, hora rosas, hora verdes
e a vida fica assim, colorida, opalescente



quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Eu amo a vida!!

http://leticiacbarros1.blogspot.no/search?updated-min=2012-01-01T00:00:00-08:00&updated-max=2013-01-01T00:00:00-08:00&max-results=1

É com este texto de sua própria autoria que me despeço da querida companheira de faculdade, da poetisa e assistente social Letícia Barros. Ela morreu dia 08 de janeiro de 2014, vítima de câncer. Viveu com intensidade e amor, foi guerreira e militante da causa do câncer na sociedade, chegando a conseguir a aprovação de uma lei municipal em Juiz de Fora/ MG, que garante direitos sociais para portadores de câncer. Não a encontrava há mais de dez anos, mas acompanhei sua luta pelas redes sociais.

Penso que pessoas como Letícia são aquelas que marcam nossas vidas com uma presença vibrante e jovem. Pessoas que nos ensinam que a vida é breve mas pode ser intensa. Que existe sim dor e sofrimento, mas que existe também fé e esperança. Sou grata por ter lhe conhecido.


Grande mulher, de beleza aberta como o seu sorriso, de grande fé, de grande valor.


Meus sentimentos aos seus familiares, amigos e ao seu esposo Bavuso.




terça-feira, 7 de janeiro de 2014

POR TUDO, POR NADA

Pelos nossos bons momentos,
SALVE!
Pelos prazeres, beijos e abraços,
SALVE!
Pelas belas risadas, boas piadas e gargalhadas,
SALVE!
Pela companhia, pelo dia a dia,
SALVE!
Pelo cuidado, por me amar,
SALVE!

Pelas noites que me deixou te esperando,
FODA-SE
Por todas as vezes que mentiu,
FODA-SE
Pela sua grande inconstância,
FODA-SE
Pelo dia em que deixou de me amar,
FODA-SE
Por todos os quilos que me fez engordar:
FODA-SE
FODA-SE
FODA-SE
FODA-SE
FODA-SE
FODA-SE
FODA-SE
FODA-SE
FODA-SE
FODA-SE
FODA-SE
FODA-SE
FODA-SE
FODA-SE
FODA-SE
FODA-SE
FODA-SE
FODA-SE
FODA-SE
FODA-SE

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

524 QUILÔMETROS

Já andei 524 quilômetros.
Vi hospitais, montanhas e outras paisagens
Andei sozinha e em outra companhia
Tracei a rota do meu olhar
Tão bonito é o caminho que escrevi para mim
Fiz uma colheita boa
Plantei batatas, com um pé na bunda
Colhi lirismo e poesia
Nesses últimos 31 dias





quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

RODA DE VIOLÃO

aqui estou embriagada
avançando a madrugada
24 horas acordada
livre de mais uma roubada
dentro de uma canoa quebrada
loba da lua almada

olhos semicerrados no breu
nem catarata nem óculos escuros
ainda nem amanheceu
o tempo passa abstrato pelos dedos
slow motion de um piscar de olhos

cantando a mesma velha canção


SEJO-ME

a poeira do dia nos sapatos
a fumaça embrenhada no estofado do sofá
e a cabeça a girar em torno do sol
coração palpitante, pulso pulsante
não sei o tanto que vou caminhar
paetê vermelho enfeitando os cabelos
a tela em branco esperando outra cor
o cheiro do sândalo queimando
me leva a pensar no que sou
espelhos pela casa, amplitude
lente modo auto retrato
espelho que me traça destorcida
nada se parece com o que sou
quem se assemelha não se carece
nada que sou é o que sei
todo ser deveria rever-se
o que sou não tem pressa em saber-se
apenas ser, se for este o querer







segunda-feira, 30 de dezembro de 2013



se a tua fome for feito a minha, de palavras e

(in)quietudes, podemos fazer um banquete.

Beber silêncios em goles profundos e

ruminar versos no dente.

ALGUÉM QUE TROCA O BOM DIA POR EU TE AMO

Alguém que troca todos os bons dias por eu te amo.
DESCONFIE.
Desconfie de muitas promessas e falta em cumpri-las.
Desconfie de silêncios desconfortantes.
Desconfie de pessoas que não sabem se vão ou se ficam.
Desconfie de quem lhe diz meias verdades.
Desconfie de olhares desviados.
Eu não desconfiei.
Troquei bons dias por nada.
Troquei promessas com a pessoa errada.
Troquei o silêncio por palavras usadas.
Troquei a minha verdade por uma mentira.
Troquei olhares profundos com a superficialidade.



quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

O SÚBITO MOMENTO DO POEMA

um poema não é para se escrever
um poema é um evento, um acontecer
um poema é para se esfregar no corpo
para ser ejaculado
saboreado
um bom poema é como uma vontade aguda
de cagar
se não for escrito naquele momento,
vira vontade crônica.

ROTINA DE ZONA

visto-me da minha pele
e um pouco de perfume importado
para esperar um homem chegar
então passo meu batom vermelho
e ele chega feroz e suado
tiro os anéis um a um
empresto de afago minha voz
e falo a este homem palavras
de escalão vulgar
os lençóis já desalinhados
e o meu batom borrado
são testemunhas do meu pecado
ele vai embora embriagado
deixa-me alguns trocados
então visto-me da minha pele
e um pouco de perfume importado....






terça-feira, 24 de dezembro de 2013

MERGULHO NA PISCINA

vou me vestir com um parangolé de sonhos
para desfilar nesta Avenida Brasil
onde carros, motos e transeuntes se espremem

não posso mais acelerar os passos
nem correr à frente dos cavalos
cinza são os cobertores do dia

me joguei dentro do azul translúcido da água
onde meu corpo desengonçado dança
solto leve livre da inércia do seu titânio

VOO NOTÍVAGO

o vento assovia em meus ouvidos
nem triste nem alegre, me jogo no ar
em asas de anjos perdidos da glória
em telhados de casas abandonadas
rasante rasgante rangente retido
meu voo notívago me leva sem destino
com ares de quem nada teme
com ouro dos cabelos compridos
lá vou eu....

BOM DIA

hoje acordei
com dor nas costas
e poemas nos olhos
te fiz um assemblage
com ares de homenagem
e deixei no canto do quarto

hoje acordei
sob raízes nodosas do solo
deixei marcas dos meus pés
cravadas no céu como estrelas
reluzentes e cadentes

hoje acordei
com um nó na garganta
vontade de falar sacanagem
proferir impropérios, profanar santos
gritar minha inconformidade

hoje acordei
úmida de suor
com sede de beijos
calor entre as pernas
e te dei só um bom dia

hoje acordei
sem querer me levantar
acordei com dor nas costas
com sede de beijos
vontade de falar sacanagens








SOBRE TENDER E PÊSSEGOS

o acolhimento parental me levou em fluxo de sono profundo
acordei entre pomares, poemas e lambidas de cachorro
eu me finco neste chão de casa 
e ali me encontro com carinhos e sabores, afetos e lembranças
então me sento à mesa e deixo o tempo passar
com a calma dos ponteiros das horas

Kátia Kirino

NÃO ME QUEIRA

Eu sou mestra dos amores impossíveis, senhora das utopias do coração. Eu sou mãe dos prazeres improváveis, especialista em fuder relações. Eu sou tudo o que ninguém quer, tudo que não te quer bem. Eu tenho uma forma de morte, um jeito de leoa no cio. Eu desejo o mais baixo dos desejos, a mais intensa solidão. Eu sou a puta das putas, a mulher que não se leva ao altar. Eu sou braba, desengonçada, masculina. Então não me queira mais, não diga que me ama.

PARA VOCÊ

No meu desenho bobo
nossas mãos dadas
imagens de um lugar imaginário
cores que vibram no éter
coisas que definem eu e você. 

Temo aquilo que vem
queria saber se você cozinha
e se acorda de mal humor
temo ainda mais o que não vem. 

Me sinto uma garotinha
correndo de pantufas por entre as galáxias que nos une
mas quantos anos luz nos separam?

Quando digo que é um mistério
um código Morse, ideograma
é que nem eu sei o que posso decifrar
nem qual pergunta vai te desvendar.

Kátia Kirino

sábado, 21 de dezembro de 2013

ESQUECIMENTO

no labirinto da memória
flutuo meus pensamentos
oblíquo e súbito peso
suave e redondo desapego

escuro e silencioso passado
gritando coisas no pé do ouvido
do tipo que só falam os amantes
beirando a indigestão das verdades

em algum lugar me espera o esquecimento
frio e mesquinho, o esquecimento
longe, longe, longe
senil lembrança







quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

DIÁLOGO MATINAL ENTRE A POESIA E O POETA

- Me traz um café e um toque.
- Primeiro o toque. Agora o café. Ainda quero ouvir aquele seu CD de rock.
- !!!!!!
- Indo ao trabalho?
- Estou nua sob o lençol de algodão. Apenas o contato da pele com o pano já me causa um frisson. Trabalho só amanhã.
- Vai ler o meu livro?
- Sim. No caminho.
- No meio do caminho um L. Na porta da casa o patuá. No centro da cama o sofá. No desvario do caminho o mar. Sobre o sofá uma outra letra L. Ei onde foi?
- Fui comer um pão. Estava faminta de você.
- Mastigou-me direitinho?
- Quando tenho fome engulo!
- Corpo devorado. Alma insaciável.
- Sobra a sede que transborda do olhar. Queria somente um pouco de mar.
- Onde estou não há o mar. Há olhar. O que me transborda é o afeto que há. Vou precisar sair também.
- Você é abissal. Acho melhor ficarmos juntos mais um pouco.
- Você está abraçada a sonhos. Coma-os também.
- Vou trepar com eles. Quero o orgasmo onírico.
- Farei fotos da sua trepada. Farei posteres surreais.
- Serei o objeto que te fará ereto.
- Objeto direto!
- Sujeito determinado.

(SILÊNCIO)

- Tudo bem com você?
- O verso está com preguiça de sair.
- Tira o bicho de perto dele.
- Acho que o engoli.
- Rima endoscópica.
- Vou regurgitar.
- Fúria e som!
- Bravo e sem versão. Posso acariciá-lo. Fazer um dengo. Pedir baixinho para ele gritar em mim. Quem sabe deixar ele quieto remoendo as suas estrofes.
- Faça o que quiser. Afinal a poesia é você. Ele é apenas um poema que sente fome.
- Só quero cantarolar um blues e gritar um rock. Matar a fome do poeta. Se sou a poesia és o repertório.
- Fique nua da sua roupa. Melhor ou pior te visto com o meu corpo temporário.
- Pensas me encontrar em alguma caminhada noturna? Talvez eu esteja lá mesmo te cobrindo com o véu do meu sabor.
- Quanto há de real neste seu corpo e alma de esquina?
- O que sinto é um traço indefinido. Mas se procuras uma resposta direta estou com tesão. Um prazer de alma que saiu do corpo. Esquina sim. Tudo bem?
- Eu, poeta, traço rabiscos na sua coxa. Decifro o mar no caminho do estar à frente da sua tesão. Rumo para a sua alma. Daí em diante serei seu leitor além de seu amante.
- Eu, poesia, rasgo as suas roupas. Desvendo a sua pele. Deixo marcas do meu lábio na sua palavra não-escrita.

(UMA MÚSICA SUAVE E INTERPLANETÁRIA SE FAZ OUVIR)

- Ficou bonito o poema. O fim de tudo na distância do nada.
- Um diálogo, uma poesia só nossa. Início do nada e na distância do tudo.

(A MÚSICA SUAVE NUM CRESCENDO DÁ LUGAR A UM ROCK PAULEIRA)

Texto: Rogério Ramos Pimentel e Kátia Kirino


QUERIDO DIÁRIO

Eu vinha tão distraída de carro ouvindo o MP3 com a seleção de músicas para repertório que eu fiz com a Alessandra que me esqueci de parar em algum lugar para comer. Agora estou com fome e lembrando que quando selecionamos estas músicas, era para cantar em barezinhos de Resende. Pensamos no Teco para tocar violão, ele sempre nos deixava dar umas canjas quando saíamos para vê-lo cantar. Mas tantos anos se passaram, Teco morreu de infarto do miocárdio, Alessandra mudou-se para a Noruega e as músicas que ouço hoje são outras. Achei um mix de castanhas na geladeira e uma maça embrulhada no papel alumínio que me esqueci de comer no trabalho. Foi minha refeição.

Saí hoje para ir a uma consulta com a minha ginecologista. Preventivo perfeito! Mas ela me pediu mil exames pois já completei 38 anos, posso fazer minha primeira mamografia, exame de sangue, urina e tal, tudo para detectar o porque da minha TPM e da infecção urinária, que é recorrente desde que operei a coluna e tive rabdomiólise, o que prejudicou os meus rins. Fora isso, parece que estou com carência de vitaminas, por isso a TPM tão prostrante e inchada. Pedi a ela ainda o teste HIV, que faço todo ano. Mas eu perdi a consulta com o clínico geral, estou ouvindo uns barulhos chatos dentro da cabeça, um zumbido constante que me deixa louca. Agora só em janeiro, esperar passar natal e reveillon.

Estou assim, meio dodói mas minha cabeça está voando. Tem dez dias que terminei com meu namorado. Aliás, ele terminou comigo. Tínhamos planos de viver juntos, ter filhos e sermos felizes para sempre. Coisa de casal careta, coisa que nós não somos e nada disso deu certo. Foi uma sucessão de sexo, drogas, rock e amor. Fiquei despedaçada com a ideia do rompimento, mas juntei os caquinhos tão depressa que nem deixei vestígios da quebradeira. Mas ainda não sei o que fazer com meu coração, esse órgão taquicardíaco que está mais fibrilado que coração de enfartado. Os ventrículos batem tão rapidamente que eu me sufoco sempre que penso no que poderia ter feito para essa história dar certo. Me sufoco quando penso que me iludi estupidamente acreditando em um sentimento fora do contexto de uma pessoa. Acreditar que o amor transforma é coisa de gente carente. Como pude me afastar tanto do meu próprio amor? Agora é aquela coisa: beber muito vinho e ficar um tempo sozinha de afetos. Vinho porque comprovadamente faz bem ao coração. Sozinha porque estou preferindo a minha companhia.

Conheci uma pessoa virtualmente. Ele é um homem inteligente, artista, poeta, magnético. Conversamos longamente em versos. Dormimos juntos no astral por três noites seguidas. Ele me abraçou forte e disse que não ia me largar mais. Fiquei tão confortável naquele abraço que me esqueci de todos os problemas. Mas eu sou ansiosa e comecei a querer saber coisas do dia a dia e me atropelei no bate papo. Acho que ele não gostou muito de eu ter deixado nosso mundo poético para falar de coisas reais. Agora estou tentando me manter em estado de poesia para não perder esta conexão que eu gostei. Sabe, ele me fez sentir de novo o gosto do desconhecido. Mas nem dormir no astral ele quis mais, disse que vai dormir com o próprio umbigo. Eu vou ficar acordada, tenho receio de que essa relação virtual me deixe ainda mais solitária, e eu quero apenas solitude.









terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Da rejeição das redes sociais

Não, eu não vou me desnudar para uma rede
não vou me poluir de comentários
nem quero ser curtida, não sou cachaça.
Do meu social apenas o sobrenome
sou mais entre quatro paredes
meia luz de abajur





BUTOH SENTIMENTAL


eu vi meu mundo andando
corri para não sair do lugar
segurei forte na mão do tempo
e subi à tona do meu pensamento

tirei da boca saliva cortante
uni o vulgar ao elegante
cansei de tanto verbo e decidi parar
no silêncio que me fez canção

exitante deixei-me levar
por seus versos castos
que cortei em figurinhas
para emoldurar

e toda noite me fiz embalar
em sonhos e rabiscos surreais
li entrelinhas e estrelas até dormir
e acordar exausta de tanto tê-lo

querendo encontrar a substância do seu olhar
dancei estática um butoh sentimental
agora estou apaixonada até
pela melancolia no seu pé


sábado, 14 de dezembro de 2013

CONTRAMÃO

todos indo, eu vindo
gosto do meu caminho
tem curvas, tem morros e tem mar
enquanto a noite vaza, eu amanheço
quando todos cantam, eu Kahlo
e nem quero o seu consolo
prefiro meu espinho perfurando a pele
enquanto eu acaricio a ferida

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

PARA UM AMIGO

você, rei do seu mundo
ainda reina no breu absoluto
declarou guerra a um inimigo imaginário
feriu a si próprio
numa batalha solitária
mesmo que se dê por perdido
existe trégua, meu amigo

PAISAGEM DA JANELA

este paraíso que aguardamos
com oásis, coqueiros e céu azul
existe?

ou será que estamos fadados
a fazer do inferno
a paisagem da janela

e todo este peso, toda dor, todo calor
serão brindados em taças
de sangue embriagante

e toda essa nossa viagem
desvairada
vai se esvair em desamor

extremos do mesmo ser

você reside em extremos
que já habitei
labirintos da alma
fácil de se perder...

eu transpasso esse equilíbrio
frágil cordão que se desenrola
vivo neste limiar
entre a corda e o cortar

e se nos jogamos soltos no abismo
caímos feito nuvens a chover confetes
choramos juntos e lavamos nossas almas

gostar assim, livres para ser
tão livres que eu possa te perder
só desta forma eu posso ter você

 

COISAS QUE ME SÃO CARAS

quero uma pérola de Dubai
quero o mundo onírico de Fellini
precioso e sonolento
quero a melodia de Tom Waits
quero uma flor dos Jardins Suspensos
delirante e formoso
quero bigodes de gatos invisíveis
quero um Picasso na parede do quarto
cócegas e contemplação
quero toda a paz de Gandhy
quero a simplicidade de Budha
imensa e inebriante
quero uma lua do planetário
quero o bicho papão saindo do armário
cheia e noturna
quero um quilo de DNA humano
quero um diamante vermelho
passível e inatingível
quero todo Âmbar Gris do mundo
quero muita Rodopsina
fixante e iluminada
quero um suco de papoula
quero a ponta do iceberg
alucinante e distante
quero um beijo de cinema
quero um sol só pra mim
lascivo e quente
quero germinar como semente
quero tanto...

ESTRANHEZA

algo de tormento
lento
no seu canto
barulho de risadas
descompensadas
martírio de quem
reza pelo santo
não canonizado
sensação de morte
flerte com a loucura
radio sem sintonia
coisas amorfas, quadradas

tudo comprado e embrulhado
para presente

Incenso de lótus

o cheiro do incenso de massala
se mistura ao do cigarro
criando uma atmosfera enfumaçada

tenho um baita instinto olfativo
posso sentir o cheiro do perigo
vou tapar o nariz
cheirar flor

entre cheiros e gostos
fumaças e atmosferas
vou remoendo a carne
vou aparando arestas

vou me arrumando para a festa

LEVA LOGO ESSE COPO

Ficou o gosto da sua boca, 
O seu cheiro nos lençóis. 
Ficou a sombra sonora 
do seu riso,
O Abraço que me deu abrigo. 

Ficou a lembrança
fluída da sua presença.
Ficou a palavra não dita,
O gesto contido, 
O copo da Coca Cola
que a sua mãe
te deu.

POEMA DO NOVO AMOR

se me queres inteira
não me deixe metade
mas se quiser ficar junto
posso deixar-te louco
rouco de tanta paixão

só não me tenhas por ter
pois o seu desejo
é o meu quinhão
e saiba, levo comigo meu instinto
lhe entrego meu coração

desse calor que careço
nem os deuses merecem
senão por milagre e perdão
ore no meu ventre que lhe entrego
pois só Deus explica tanto tesão

apenas lhe peço minha liberdade
não suporto limitação
ao mesmo tempo lhe imploro: seja meu
nunca me deixe solta
pois o amor é a melhor prisão

Poesia reeditada para os Jogos Florais do GLR 2013. Nov/2010

INSPIRAÇÃO

Quantos versos preciso
para falar do meu amor?

Camões os conta
na língua dos anjos:
"sem amor eu nada seria"

O rei os canta
no ritmo do iê iê iê
"com palavras não sei dizer"

Quero ver o meu verso
arder em fogo brando
urgente como um abraço
inquieto como a chama

Quero ver o meu verso
crescer, palavra por palavra
desabrochar colorido
flor fruto do amor

Tentei inventar versos
para descrever este amor
descobri ser você minha obra prima
o meu próprio poema

19/09/13
Poesia selecionada para os Jogos Florais do GLR 2013

INSONE

hoje dormi de cobertor
a frente fria trouxe a chuva meu amor
à noite eu tive um sonho
que eu quero voltar a sonhar
preciso de um gole para pegar no sono
qualquer droga que me embriague
e apague
a luz
a solteirice tem cheiro
de cio no ar

além da solidão que ela exala...

sábado, 7 de dezembro de 2013

de como matar o amor

Para extrair alguém de dentro de si há que se arrancar o coração do peito. Morrer com o coração nas mãos para matar uma ausência que insiste em permanecer. Trocar os lençóis da cama, tirar as fotos do porta retrato. Para esquecer um grande amor há que ser mais amante de si mesmo e molhar a boca em outros beijos.

sábado, 30 de novembro de 2013

domingo, 17 de novembro de 2013

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

ai o amor

Agora, falando sério,
não existe poesia para o amor.

Ele vibra, ele emana,
ele rima, não com dor.

Se eu pensar que não amo
pode ser um engano.

Pois eu te digo, todo dia,
 eu te amo.

mas vai entender o amor?
vai querer viver de amor...
vai chorar
vai sorrir
vai
ai







soltei o verbo
não quero parar
mas escrever é uma coisa que tem vontade própria meu pai
vai saber?
eu ando gingando
e você?