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segunda-feira, 26 de setembro de 2016

acabou a água, secou a fonte
não tem mais jeito, vida de merda.
nem adianta fazer viagem catarsica
embrenhar no mato, solitário
não tem santo nem reza
comigo não tem meia palavra
não tem não...
miro a linha de chegada
ainda vesga, cega, lerda
sei onde é esse lugar?
dúvidas...

danço-te



danço-te com as mãos em riste
como se lhe ensinasse passos de valsa
e me lembrasse que não sei valsear
então tango, sambo, arrasto as tamancas

danço-te inteiro, íntegro
corpo, dentro, transbordando
como quem dança a última dança
movimentos passionais

danço-te apenas e simplesmente
lenta e moderadamente
lhe envolvo no meu ventre
revolvo-lhe a mente

terça-feira, 2 de agosto de 2016

terça-feira, 21 de junho de 2016

tatoo poesia


registrei na pele
um alerta:
"poesia"

para se ler sob
duras realidades

e afastar
rasas personalidades



sim, assim


eu gosto do nosso amor
eu aqui do meu jeito
você cá do seu lado
a gente mistura um bocado
ninguém mais mete a colher
e seja o que der e vier




quinta-feira, 9 de junho de 2016

ser excessivamente não é ser plenamente



o culto a si oculta um tanto de mundo
limita um bocado a vida
nem sub nem sobre humano
verdades, certezas, afirmações
absolutismo, fanatismo, discrepância
deixe de lado esse fardo
quando acabar será coberto de terra
ou virará cinzas como eu
teus bens terão outros donos
sua memória será evitada
para não causar dor


Kátia Kirino


segunda-feira, 16 de maio de 2016

férias de mim

ai, cansaço de mim
preciso de outra solidão
dessa de encontrar vazios

ando cheia de mim
preciso ser Outras
trocar as verdades de lugar

elas não ficam bem na sala de estar

Kátia Kirino

segunda-feira, 2 de maio de 2016

[movimento de adição]

escrevo com os nervos do braço rígidos de dor
escrevi tanto que ganhei uma lesão, ela dói mais no
meu cerne. somatizei, renunciei ao antidepressivo 
do exagero vem o estrago e também a perfeição

me submeti a alguns disparates
da entrega absoluta ao nada infinito
do transbordamento a falta de sentimento
do ódio a isenção do sofrimento

parei de viver o momento para sê-lo: sou
a hora do parto, a última arfada de vida
a pausa do alvoroço...
sou o tique taque do meu tempo

disposta a morrer de fome, sem lirismo que sacie
nem catarse que exorcize o patife que devora a matéria
talvez eu consiga esquecer, parar de escrever, deixar de ser
quem sabe o ócio mitigue a dor dos braços e blá blá blá

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

ELE

ele me leva e me lava em sua alma leve
ele olha além da minha forma, me olha dentro
ele sabe o que existe por trás do meu olhar
ele é o meu dilúvio, raio, trovão, meu orvalho
ele me saqueia toda e ainda quero lhe dar mais
ele tece um cândido fio de lucidez na minha loucura
ele amarra o laço que une o agora e o amanhã
ele tem nos lábios o amargo para o meu doce chocolate
ele se cala quando a palavra deixa de falar
e ali quieto, em seu mundo, seu quarto, seu corpo
ele existe em tudo, está em todos os lugares
gruda em meus seios, pisa onde pisam meus pés
habita minha memória, modela meu id
dá-me suas mãos e se deixa guiar pelas minhas
ele é lava incandescente da minha erupção
ele é despercebidamente quem me atém sempre e além

KÁTIA KIRINO


ESPECIALISTA

queria implodir
em forte estrondo
num novo mundo
cantar até secar a voz
e recitar a poesia perfeita

mas comecei a estudar na FIOCRUZ
e agora tudo que explode
é a atual crise do SUS
engulo a seco a privatização
e só falo de projeto de intervenção

KÁTIA KIRINO